Monografico_A_avalia__o_de_qualidade_experimental

A avaliação de qualidade experimental do requisito relevância na agenda sobre meio ambiente do Jornal Nacional

The experimental quality assessment of the relevance requirement in the Jornal Nacional’s environmental agenda (Brazil)

La evaluación de la calidad experimental del requisito de relevancia en la agenda ambiental de Jornal Nacional (Brasil)

Josenildo Luiz Guerra

Universidade Federal de Sergipe (UFS) / lucianascaraffuni974@gmail.com

Daniel Pereira Brandi

Universidad de la República (Uruguay) / lucianascaraffuni974@gmail.com

Chasqui. Revista Latinoamericana de Comunicación

N.º 144, agosto - noviembre 2020 (Sección Monográfico, pp. 215-240)

ISSN 1390-1079 / e-ISSN 1390-924X

Ecuador: CIESPAL

Recibido: 10-08-2020 / Aprobado: 20-10-2020

Resumo

A pesquisa fez uma avaliação de qualidade experimental da cobertura do Jornal Nacional (JN) sobre a temática ambiental, com base no requisito relevância. O método empregado foi o Guia da Agenda Jornalística (GAJ), que compara a relevância dos temas nas agendas mo-nitoradas (agendas política/governamental e pública) com a relevância dos temas presentes na agenda do JN. Quanto mais convergentes, em tese, maior será a qualidade da cobertura. O resultado apontou que o JN produziu uma boa cobertura, mas provocou saturação no noti-ciário de alguns subtemas enquanto outros tenderam à retração ou à invisibilidade. O diag-nóstico pode contribuir para o JN aperfeiçoar sua abordagem sobre a temática e auxiliar os agentes da área ambiental no monitoramento e proposição de pautas.

Palavras-chave: jornalismo; meio ambiente; qualidade; relevância; Jornal Nacional

Abstract

This study is an experimental quality assessment of Jornal Nacional’s (JN) coverage on the environment, based on the relevance requirement. The method used was the Journalistic Agenda Guide (GAJ), which compares the relevance of themes in the monitored agendas (political/governmental and public agendas) with the relevance of themes in JN’s agenda. The more convergent these themes are, in theory, the higher the quality of coverage they receive. The result showed that JN provided good overall coverage, but a few subthemes were satura-ted while others tended to be glossed over or ignored. The diagnosis of this study can help JN improve its approach on the theme and help agents monitor and propose guidelines in the environmental field.

Keywords: journalism; environment; quality; relevance; Jornal Nacional

Resumen

La investigación realizó una evaluación experimental de la calidad de la cobertura de Jornal Nacional (JN) sobre el tema ambiental, con base en el requisito de relevancia. El metodo utilizado fue el Guía de Agenda Periodística (GAJ), que compara la relevancia de los temas en las agendas monitoreadas (agendas políticas / gubernamentales y públicas) con la rele-vancia de los temas presentes en la agenda de JN. Cuanto más convergentes sean estos temas, en teoría, mayor es la calidad de la cobertura. El resultado mostró que el JN propor-cionó una buena cobertura, pero provocó la saturación de algunos subtemas mientras que otros tendieron a encogerse o invisibilizarse. El diagnóstico puede ayudar a JN a mejorar su abordaje del tema y ayudar a los agentes del área ambiental a monitorear y proponer linea-mientos.

Palabras clave: periodismo; medio ambiente; calidad; relevancia; Jornal Nacional

1. Introdução

O artigo propõe uma avaliação da agenda jornalística sobre o meio ambiente na cobertura do Jornal Nacional, telejornal brasileiro de maior audiência no país. O objetivo foi testar a aplicação na área ambiental de um método para avaliar a qualidade jornalística sobre o requisito relevância. A proposta visa propor uma avaliação que contribua para monitorar a qualidade da seleção temática da agenda noticiosa e oferecer um instrumento de auxílio ao trabalho jornalístico para o planejamento e controle editorial da sua produção.

O problema consiste em testar parâmetros de aferição de relevância que permitam mensurar a qualidade da seleção temática que compõe - ou deveria compor - a agenda ambiental do JN. A análise deverá apontar o nível de qualidade da cobertura, a partir dos parâmetros estabelecidos de forma experimental pela pesquisa.

A solução proposta para o problema resulta da aplicação do Guia da Agenda Jornalística (GAJ), umas das ferramentas desenvolvidas no âmbito do Programa de Pesquisa em Qualidade, Inovação e Tecnologia Aplicada ao Jornalismo (Qualijor), do Laboratório de Estudos em Jornalismo (Lejor), que se encontra em fase de testes, sendo o presente estudo mais uma etapa de seu desenvolvimento e validação. Os resultados alcançados não são conclusivos, ainda que ofereçam pistas para se avaliar e qualificar a cobertura analisada.

Qualidade é definida como o grau no qual o produto satisfaz a requisitos, manifestados explicita ou implicitamente pelas partes interessadas (ABNT ISO BR 9000, 2015, p. 21-22), que correspondem ao conjunto de atores e grupos que exercem algum tipo de influência junto aos veículos jornalísticos (Guerra, 2020). A relevância é um parâmetro de qualidade porque expressa uma expectativa e uma necessidade dessas partes em relação ao conteúdo jornalístico. E a temática ambiental, seus temas e subtemas, se constituem em referências de relevância porque demandada pelas partes interessadas, conforme levantamento apresentado no tópico metodologia.

O artigo está estruturado em cinco partes: uma breve revisão de literatura sobre a temática ambiental em coberturas jornalísticas; a estruturação do problema proposto na perspectiva da Pesquisa Aplicada em Jornalismo (Guerra, 2016); a apresentação do método; os resultados sobre o nível de qualidade da cobertura do JN; e, por fim, a conclusão com indicações relativas a passos futuros para consolidar e aperfeiçoar o método proposto. Como o objetivo é o teste do método, nem todos os aspectos teóricos poderão ser aprofundados em virtude da delimitação do escopo e do tamanho do artigo.

2. Revisão de Literatura

A pauta ambiental tem despertado o interesse de pesquisadores que, frequentemente, analisam deficiências e fragilidades da cobertura. Neste estudo, a ênfase recai em pesquisas sobre agendamento, conforme a perspectiva de McCombs (2009). Segundo sua teoria do agendamento, a mídia exerce um papel social determinante, porque tem a “habilidade de influenciar a saliência de tópicos na agenda pública” (McCombs & Reynolds, 2002, p. 6).

Vários estudos se dedicam às notícias sobre meio ambiente, entre os quais, Weaver e Elliot (1985), Barros e Sousa (2010), Cruz (2013) e Girardi, Loose e Steigleder (2020). Todos analisam a disparidade do tratamento dado à pauta sobre meio ambiente e outros assuntos corriqueiros, como política, criminalidade e economia.

Na pequena cidade norte-americana de Bloomington, em Indiana, a análise de um diário local indicou a presença de 19 temas noticiosos. Quatro deles - arte e entretenimento, congelamento nuclear, serviços e eleições - ganharam cobertura em larga escala. Em menor grau estavam outros dois: proteção dos animais e desenvolvimento urbano (Weaver & Elliot, 1985). De três assuntos nitidamente relacionados ao “meio ambiente”, somente um (congelamento nuclear) recebeu tratamento maior, em proporção e ênfase.

A agenda de eventos merece consideração à parte. Por ocasião das grandes reuniões políticas, como a Conferência de Estocolmo e a Rio +20, vários assuntos normalmente relegados ascenderam à categoria de relevantes, antes, durante e depois dos eventos.

A emergência dos temas ambientais e sua inserção na agenda dos media (...) estão diretamente vinculadas à evolução de uma agenda ecológica internacional, conduzida por organismos transnacionais de amplo reconhecimento e com capacidade de intervenção política nos países ocidentais, como a Organização das Nações Unidas. É nesse processo de negociação que está o gérmen da mediatização do ambiente e da constituição de uma “esfera pública verde” ou “ecosfera”. (Barros & Sousa, 2010, p. 45)

Cruz (2013), em um estudo sobre “la calidad de la información sobre medio ambiente”, com base nos jornais diários espanhóis El Pais, ABC e El Mundo, observa a inexistência de seções especializadas para a temática no jornalismo tradicional, e assinala resposta insuficiente à demanda do público. “Os temas emergentes nos meios nem sempre correspondem à agenda de temas que estão no índice de interesse e preocupações cotidianas dos cidadãos” (Cruz, 2013, p. 178, tradução livre).

Na Espanha, a pesquisa revela que os temas ambientais mais frequentes na imprensa estão relacionados a medidas administrativas, políticas e de proteção – que incluem a legislação disponível e aplicada, além de planos, programas e acordos governamentais. Em segundo lugar, aparecem temas da biodiversidade (fauna, flora) sob o ponto de vista conservacionista e, por conseguinte, dos fatores de ameaça (contaminação, desmatamento).

A conclusão é de uma abordagem excessivamente política no país – fato que conflui com outro resultado do estudo: a adaptação da imprensa à “agenda de temas proposta por instituições e governos” (Cruz, p. 183), cujas fontes correspondem a 44,2% das notícias. Além disso, o percentual da informação ambiental frente às demais editorias é de apenas 2,26% (p. 181). O noticiário ambiental apresentaria limitações na seleção de conteúdo, com preferência à escolha de grandes acontecimentos e certa proximidade cultural.

Girardi, Loose e Steigleder (2020) fizeram uma análise da cobertura ambiental do Jornal Nacional de janeiro a junho de 2019, posterior ao período da cobertura analisado neste artigo. Elas concluem que o telejornal tem privilegiado acontecimentos factuais, sem contextualização aprofundada, mas avançado para um tratamento transversal da pauta, de modo a acompanhar uma “percepção global de aumento dos riscos ambientais” (p. 59).

Segundo o trabalho, o assunto tem caminhado para deixar de ser restrito a eventos agendados e ganha terreno na junção com a pauta política. Nesse caso, a transversalidade (Meio Ambiente e Política) é notada, sobretudo, no acompanhamento de notícias sobre os primeiros seis meses de gestão do governo Bolsonaro, em virtude da repercussão de mudanças estruturais geradas pelo Poder Executivo.

3. Fundamentos teórico-metodológicos

A avaliação pretendida se dá no âmbito da proposta de Pesquisa Aplicada em Jornalismo, que visa a articulação de um “conjunto de elementos teóricos e metodológicos voltados para compreender o fazer jornalístico e intervir nele de modo cientificamente orientado” (Guerra, 2016a, p. 202). O problema aplicado desta pesquisa é 1) como avaliar a qualidade da cobertura jornalística sobre meio ambiente com base no critério relevância e 2) como desenvolver instrumentos capazes de orientar os jornalistas e empresas a tomar decisões dessa natureza, lastreados em parâmetros transparentes e objetivos, que possam ser monitorados pela audiência e a sociedade.

A metodologia de Pesquisa Aplicada em Jornalismo (PAJ) aqui proposta se articula em torno de dois princípios: o Princípio Finalidade e o Princípio Complementaridade. O Princípio Finalidade sistematiza os papéis que a instituição jornalística se propõe ou é solicitada a cumprir na sociedade, mediante acordos e convenções estabelecidos socialmente que lhe atribuem um conjunto de responsabilidades. O Princípio Complementaridade determina o respeito a eixos que, embora se refiram a questões de diferentes e específicas naturezas, juntam-se numa particular configuração para dar sentido e efetividade ao Princípio Finalidade, quando considerada a prática do jornalismo. (Guerra, 2016a, p. 202)

A relevância dos temas a serem noticiados é uma das responsabilidades (Princípio Finalidade) do jornalismo praticado no contexto ético-político das sociedades democráticas contemporâneas. Quatro eixos, dos seis previstos no âmbito do Princípio Complementaridade (teoria, ética, técnica, processos, tecnologia e sustentabilidade) são transversalmente considerados neste estudo. O eixo teoria, na apresentação dos fundamentos conceituais que sustentam a avaliação e a gestão de qualidade proposta. O eixo ética, na vinculação do compromisso profissional com a seleção de fatos relevantes, passíveis de demonstração por meio de instrumentos de accountability. Os eixos técnica e processos, nos tópicos “Matriz de Relevância” e “A cobertura de meio ambiente no JN”, operacionalizam os procedimentos para a qualidade editorial, de modo alinhado ao referencial teórico que os valida cientificamente e o referencial ético que os valida moralmente. É essa articulação entre as responsabilidades propostas no Princípio Finalidade e os eixos do Princípio Complementaridade que constitui o fundamento metodológico da proposta de Pesquisa Aplicada em Jornalismo (PAJ).

No eixo teórico, a relevância jornalística é concebida a partir das expectativas da audiência, processadas pela atividade jornalística e categorizadas na forma de Valores Notícia de Referência. A relevância, segundo Sperber e Wilson (1995, p. 122), está relacionada à capacidade que uma mensagem tem de provocar algum efeito em quem a recebe, resultante de uma ação combinada entre um estímulo externo que age sobre o indivíduo e suas próprias suposições acerca dos temas para os quais é provocado. No âmbito do jornalismo, tais suposições constituem uma expectativa de relevância, as quais se cristalizam na forma dos valores-notícias, que guiam o processo de seleção e tratamento dos fatos (o estímulo externo) que acionam a cobertura jornalística (Guerra, 2008; Feitoza, 2016; Guerra & Feitoza, 2020).

As expectativas da audiência se estruturam em torno de competências de duas ordens: privada, experiências e saberes cultivados pelo indivíduo em seu processo de formação social, cognitiva, cultural, etc., marcada por seus gostos e preferências pessoais; e pública, as responsabilidades ético-políticas, seus direitos e deveres, próprias de um cidadão no contexto das sociedades democráticas contemporâneas. Essas duas ordens se interpenetram. A primeira, resulta de um aprendizado espontâneo pelo cultivo de áreas de interesse particular; a segunda, requer algum grau de aprendizado formal, em regra, sobre a engenharia institucional que constitui o sistema perito (Giddens, 1993) das instituições políticas.

Por audiência, entende-se o conjunto das pessoas que interage concretamente com notícias produzidas pelos veículos jornalísticos (McQuail, 1997). Essas pessoas carregam em si demandas de ordem privada e pública, conforme a situação e o papel que exercem em cada contexto. Essas expectativas, quando mobilizam muitos indivíduos, vão compor as agendas próprias dos diversos segmentos sociais, com as quais os veículos jornalísticos podem interagir e gerenciar o grau de visibilidade que irão dedicar aos temas mais sensíveis nelas presentes (McCombs, 2009; Traquina, 2001, p. 25).

Este artigo vai trabalhar com as expectativas de ordem pública, que potencialmente configuram as políticas públicas relacionadas à área ambiental. Elas vão mobilizar, para os limites deste estudo, duas agendas: a governamental ou política, representada pela pauta das instituições encarregadas de gerir as políticas públicas; e a pública (nesse caso, importante distinguir “expectativas de ordem pública” de “agenda pública”), representada pela pauta dos diversos atores da sociedade civil. As expectativas alimentadas nessas agendas representam, em parte, a fonte dos parâmetros de relevância processados pelas organizações jornalísticas.

Ambas as agendas têm uma percepção do que seja relevante com base nas questões de ordem pública. O fundamento para avaliação de qualidade da cobertura jornalística, no que diz respeito ao requisito relevância, é a medida na qual os jornais conseguem explorar os temas dessas agendas. Em suma, a qualidade jornalística será melhor na proporção que consegue dar conta, satisfatoriamente, dos temas presentes nas agendas governamental e pública, isto é, dar visibilidade a elas e contribuir com meios de accountability na fiscalização dos poderes públicos constituídos.

O objetivo do guia é oferecer parâmetros e procedimentos técnicos e processuais para decisões editoriais com base em dados para a composição da agenda jornalística. Do ponto de vista técnico, o guia é um protocolo de procedimentos que opera um conjunto de indicadores (o Fator de Relevância, o Índice de Resolução Semântica e o Indicador de Produtividade), a ser aplicado sobre uma Matriz de Relevância, que resulta igualmente de um protocolo de sistematização de temas e subtemas que caracterizam uma área temática.

O Fator de Relevância Jornalística (FRJ) representa o peso dado a um tema ou subtema pelas agendas monitoradas, constituindo-se numa referência para a seleção e ênfase dos temas na sua agenda. O conceito de Resolução Semântica (RS) (Fidalgo, 2004) tem como princípio a correlação entre a relevância do tema e a quantidade de notícias produzida sobre ele. “Dependendo da importância e do interesse do acontecimento relatado, as notícias aumentarão em número e em detalhe, permitindo desse modo uma visão mais em pormenor do acontecimento” (Fidalgo, 2004, s/p). Quanto mais notícias se produzirem sobre um acontecimento, maior tende a ser sua Resolução Semântica (RS).

Os conceitos de Fator de Relevância Jornalística (FRJ) e de Índice Resolução Semântica (IRS) estabelecem uma relação de dependência entre si. Quanto mais relevantes os fatos, cresce a exigência de maior resolução semântica, e vice-versa. Essa relação é, entretanto, condicionada ao Indicador de Produtividade (IProd) de uma determinada empresa jornalística, que representa a sua capacidade de produção. Ou seja, o Índice de Resolução Semântica deverá se situar no limite da capacidade de produção instalada do veículo considerado.

Para o funcionamento do guia, é essencial o domínio da área temática, expresso pela Matriz de Relevância, documento que estrutura os conteúdos a serem abordados. No caso analisado, trata-se da área ambiental, que será organizada em diversos temas e subtemas necessários para sua compreensão em toda a sua complexidade.

Do ponto de vista processual, o guia e a agenda deveriam ser operados, em etapas, tanto no âmbito da gestão editorial quanto da produção. No âmbito da gestão, a primeira etapa destina-se à montagem da matriz, com a organização temática que melhor represente a área de cobertura e sua validação junto às agendas monitoradas; depois, aplicam-se a ela os indicadores do guia (Fator de Relevância e Índice de Resolução de Semântica de Referência), que estabelecerão metas de desempenho para os diversos temas. Essas etapas devem ser atualizadas periodicamente, haja vista o dinamismo dos processos sociais e políticos. No âmbito da produção, o guia deve ser objeto de consulta regular em reuniões de pauta, operado em processos de avaliação internos (como o proposto neste artigo), cujos resultados devem voltar às reuniões de pauta para dar o feedback sobre perfil de cobertura produzido.

Do ponto de vista ético, os eixos teórico, técnico e processual envolvidos na elaboração do guia se articulam a fim de garantir a transparência da decisão editorial orientada por parâmetros técnicos, pois permitem ações de accountability para avaliar e revisar os processos de tomada de decisão editorial. Instrumentos de accountability, internos e externos às organizações jornalísticas (ver Paulino, 2009; Fengler, Eberwein, Mazzoleni, Porlezza & Russ-Mohl, 2014; e Guerra, 2020), podem se valer dessa possibilidade para promover meios de correção da cobertura jornalística, identificando pontos fracos, sanando as deficiências e elevando seu padrão de qualidade.

A área temática e a Matriz de Relevância

A base da Matriz de Relevância, neste estudo, é o quadro proposto por Ungaretti (1998), que formulou 11 unidades temáticas, cada qual com quatro unidades informativas (Quadro 1) ao analisar, durante um ano, o conteúdo da página diária de meio ambiente do jornal Gazeta Mercantil. De forma geral, a formulação do autor foi preservada. Contudo, algumas unidades temáticas e índices foram submetidos à revisão, para adequação ao momento histórico e ao modelo jornalístico atual.

Quadro 1 Mapa de Ungaretti - Unidades temáticas ambientais

Unidades temáticas

Índices

Cód.

Unidades

1

2

3

4

1

Urbanismo

Planejamento

Crescimentoejamentotalotti - a Tabela 6e anos depois. dedicava uma parte do jornal a pautas de Meio Ambiente.

Qualidade de vida

Outras

2

Recursos Hídricos

Abastecimento

Poluição

Recuperação

Outras

3

Reciclagem

Domiciliar

Industrial

Novas tecnologias

Outras

4

Camada de Ozônio

Proteção/Novas tecnologias

Legislação

Ciência

Outras

5

Ocorrências

Naturais

Provocadas

Ação ambientalista

Outras

6

Oceanos

Nacional

Internacional

Recursos

Outras

7

Matrizes Energéticas

Racionalização

Alternativas

Previsões

Outras

8

Desenvolvimento

Sustentabilidade

Agências

Ação empresarial

Outras

9

Política Ambiental

Flora

Fauna

Solo

Outras

10

Nuclear

Segurança/

Acidentes

Utilização

Programa nacional

Outras

11

Legislação

Nacional

Internacional

Disputas/Ações

Outras

Fonte: Ungaretti (1998).

A atualização da Matriz de Ungaretti (1998) para a Matriz de Relevância (2018) passou por três movimentos: incorporação de categorias que perderam relevância por outras que a mantiveram (como “Nuclear”, incorporada por “Matrizes energéticas”); criação de macrotemas que ganharam relevância no período (como Biodiversidade, Produção de Alimentos e Recursos Naturais); e ajuste na definição e no escopo da categorias já existentes (como “Camada de Ozônio”, redefinida para “Temperatura e Mudanças Climáticas”).

Após a atualização da matriz (Tabela 1), o passo seguinte foi sua validação e atribuição de fatores de relevância por tema e subtema. Para cada uma das agendas monitoradas, política ou governamental e pública, foi adotado um procedimento específico.

A indicação do Fator de Relevância para a agenda política foi extraída de um conjunto de documentos de organismos governamentais: um, de caráter intergovernamental e internacional, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma); outro, de caráter nacional, o Plano Plurianual (PPA) do Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal (MMA), que estabelece, conforme o parágrafo primeiro do Artigo 165 da Constituição Federal do Brasil, “de forma regionalizada, as diretrizes, objetivos e metas da administração pública federal para as despesas de capital e outras delas decorrentes e para as relativas aos programas de duração continuada” (Brasil, 1988).

No âmbito da ONU, dois textos foram analisados: o relatório Brundtland (Nosso Futuro Comum), resultado da Conferência Mundial sobre o Homem e Meio Ambiente, realizada em 1972, em Estocolmo; e a lista de questões ambientais consideradas prioritárias pela ONU Meio Ambiente em 2018. O relatório Brundtland aponta os sete principais objetivos das políticas ambientais que derivam do conceito de desenvolvimento ambiental. Quando temas e microtemas da Matriz de Relevância foram identificados com alguns desses objetivos, receberam Fator de Relevância 5. O mesmo procedimento foi adotado com as questões ambientais relacionadas como prioritárias pela ONU Meio Ambiente em 2018 (cf. Tabela 1).

No âmbito do governo federal, o Fator de Relevância foi definido a partir do Plano Plurianual 2016-2019 (PPA). O MMA participou no eixo de atuação prioritária de quatro Programas Temáticos com respeito à “transversalidade do tema ambiental”: 050 – Mudança do Clima; 2078 – Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade; 2083 – Qualidade Ambiental e 2084 – Recursos Hídricos. Para cada tema e micro tema correlacionado aos programas temáticos foi aplicado o Fator de Relevância 5. Para os demais, foi estabelecido um padrão de pontuação comparativo, decrescente, em relação aos que atingiram o maior peso (Tabela 1).

Para os fatores de relevância da agenda pública, foi solicitada a colaboração de três especialistas, com diferentes perfis de atuação na área ambiental: uma representante do terceiro setor; um professor de ética ambiental; e um consultor e professor, ex-secretário estadual do Meio Ambiente1. A atribuição de cada um pode ser conferida na coluna da Agenda Pública da Tabela 1.

 

A cobertura ambiental no JN: método, resultados e discussão

O Jornal Nacional é o telejornal de maior audiência do Brasil, exibido em horário nobre, de segunda-feira a sábado. No ar desde 1969, é compacto (cerca de 45 minutos), tem linguagem simplificada e apresenta conteúdo diversificado sobre o Brasil e o mundo. Segundo o Kantar Ibope, a audiência é crescente e há aumento de consumo por jovens e crianças. Em março de 2020, o instituto indicava média de 37 pontos de audiência na Grande São Paulo (cada ponto equivale a 203 mil pessoas) e de 38 pontos no Rio de Janeiro (121 mil pessoas por ponto). Na mesma faixa de horário, as demais emissoras de TV aberta registravam audiência abaixo de 10 pontos.

Os dados iniciais da análise de qualidade proposta são extraídos por meio da Análise de Conteúdo (Bardin, 1977), a partir do que será aplicado o Guia da Agenda Jornalística. Todo o conteúdo do JN produzido no período analisado foi categorizado em 12 rubricas (Tabela 2). De novembro de 2016 a outubro de 2017, o JN produziu 5.165 notícias, média de 430,4 por mês. Sobre as notícias destinadas a meio ambiente, foram 341, média de 28,4 por mês. Todos esses valores representam as bases para se estimar a capacidade de produção instalada do JN, empregados adiante para definição de seus índices de produtividade.

A primeira questão avaliada foi se a média de 28,4 matérias por mês corresponde a um padrão satisfatório de cobertura, considerada a relevância da rubrica meio ambiente em relação às outras onze. Para essa avaliação, foram estimados Fatores de Relevância por rubrica, conforme operado por Silva (2019) em sua dissertação de mestrado sobre a relevância na agenda da área de Saúde, também no JN. A autora, que empregou em sua dissertação de mestrado o mesmo método usado neste trabalho, atribuiu os fatores de relevância conforme a pesquisa Retratos da Sociedade Brasileira - Problemas e Prioridades, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (2018), divulgada em janeiro de 2018 (Silva, 2019, p. 67).

Temas da pesquisa associados diretamente às rubricas do JN tiveram FR-R 4. A pesquisa aferiu a preocupação dos brasileiros em 2018, mas o conteúdo do JN avaliado foi de novembro de 2016 a outubro de 2017, portanto, períodos não coincidentes. O uso dessa referência para a definição dos fatores de relevância das rubricas foi uma definição dos autores para a simulação pretendida, a fim de sinalizar métodos possíveis de serem empregados numa avaliação efetiva. As rubricas não mencionadas na pesquisa tiveram seus fatores de relevância definidos pelos autores, através de atribuição livre, a fim de completar os dados necessários ao teste.

A rubrica meio ambiente, não citada na pesquisa CNI pelos entrevistados, recebeu o Fator de Relevância 3, de uma escala de 1 a 4. O Índice de Resolução Semântica de Referência (IRS) para meio ambiente foi obtido conforme equação abaixo, em valores arredondados (Tabela 2).

 

IRS-R

=

[(IProd

x

FRJ-R)

÷

∑FRJ-R]

x

número de rubricas

33

=

[(36

x

3)

÷

39]

x

12

Onde:

IRS-R – Índice de Resolução Semântica de Referência para o tema em análise

IProd (tema) – Indicador de Produtividade Jornalística por tema

FRJ-R – Fator de Relevância Jornalística de Referência para cada tema

FRJ – somatório dos fatores de Relevância Jornalística

No. Temas/Rubricas – número de temas/rubricas a receberem cobertura

Tabela 2 – Fator de Relevância e Índice de Resolução Semântica por rubrica – mensal*

Editorias

Fator de Relevância**

IProd médio por rubrica

IRS-R

Política

4

36

44

Economia

4

36

44

Cultura

4

36

44

Educação

4

36

44

Saúde

4

36

44

Segurança

4

36

44

Ciência & Tecnologia

3

36

33

Justiça

3

36

33

Trânsito

3

36

33

Meio Ambiente

3

36

33

Esporte

2

36

22

Religião

1

36

11

SOMATÓRIO

39

432

432

* Com base em valores arredondados, por isso o total de notícias calculado na Tabela 2, 432, difere do total real de notícias sobre meio ambiente, de 341.

** Com base no ranking dos temas apontados como mais relevantes pela pesquisa Retratos da Sociedade Brasileira-Problemas e Prioridades (CNI, 2018) e adaptações feitas pelos autores.

Fonte: Elaboração própria.

O Índice de Resolução Semântica de Referência (IRS-R) de Meio Ambiente foi de 33 notícias/mês, obtido com base na capacidade produtiva do JN (IProd médio por rubrica de 36), e com base no Fator de Relevância da área da ambiental, 3, dividido pela somatória dos fatores de relevância das doze rubricas (39). O mesmo procedimento foi feito para as demais 11 rubricas. Importante: o IRS-R aponta quantitativos de referência, que jamais devem representar meta absoluta, sem a devida contextualização e ponderação de variáveis pertinentes, não desenvolvidas nesse artigo em razão do objetivo delimitado. Por isso devem ser respeitadas margens de tolerância, expressas pelo Percentual de Variação (Tabela 3).

Na Tabela 3, está o primeiro diagnóstico sobre a qualidade da cobertura do JN. O JN produziu 341 matérias de saúde no período, média de 28,4 matérias mensais sobre meio ambiente, valor do seu IRS-Apurado (apurado significa o valor extraído da cobertura real). Mas, se considerado o Fator de Relevância Jornalística de Referência (referência significa peso atribuído pela agenda considerada), aplicando-se a fórmula do Guia da Agenda Jornalística, o total de notícias mensais sobre saúde deveria ser 33/mês e 396/ano (Índice de Resolução Semântica de Referência mensal e anual respectivamente).

Considerando o Percentual de Variação das faixas do padrão de desempenho (legenda da Tabela 3), o JN pautou o tema do meio ambiente em termos proporcionais à sua relevância apontada pelas agendas monitoradas. Com o IRS-Apurado de 28 notícias por mês, o FRJ-Apurado, o peso efetivamente dado pelo JN ao tema foi 2,5 contra 3 do FRJ-Referência atribuído pelas agendas monitoradas. O percentual de variação foi de 15,2 % para menos, dentro da margem de 30% para mais ou para menos em relação ao IRS-R.

Tabela 3 – Comparativo de IRS e FR de Referência e Apurado para a rubrica Meio Ambiente

Rubrica

Fator de Relevância Jornalística

Índice de Resolução Semântica

Percentual de Variação

De Referência

Apurado

De Referência

Apurado

Meio

Ambiente

3

2,5

33

28

-15,2

Desejável - Percentual de Variação de até 30% para mais ou menos em relação ao valor de Referência.

Tende à Saturação - Percentual de Variação superior a 30% do valor de Referência até o limite de 300%.

Forte Saturação - Percentual de Variação superior a 300% em relação ao valor de Referência.

Tende à Retração - Percentual de Variação de -30% a -90% em relação ao valor de Referência.

Forte Retração - Percentual de Variação entre -90% e -100% (invisibilidade) em relação ao valor de Referência.

Na Matriz de Cobertura, constam 10 temas e 41 subtemas. Ao dividir o valor do IRS-R, número recomendado de notícias de meio ambiente por ano (396), pelo número de temas (10), resultariam em 39,6 notícias por ano. Esse valor será o seu IProd médio por tema/ano, isto é, a capacidade de produção do JN para a temática ambiental, considerando seu fator de relevância no contexto das 12 rubricas de conteúdo do JN. Ao dividir 396 (recomendação de notícias sobre meio ambiente em um ano) pelo número de subtemas (41), resulta em 9,7 notícias por ano (IProd médio anual por subtema).

Com a aplicação do Fator de Relevância Jornalística de Referência (FRJ-R) de cada subtema sobre o Iprod médio, através da fórmula do Guia da Agenda Jornalística, será possível chegar aos seus respectivos índices de Resolução Semântica de Referência (IRS-R). Os valores para cada tema serão definidos pela média dos seus subtemas, conforme disponibilizado na Tabela 4.

Os números de referência são comparados aos apurados, que representam os números reais de notícias produzidas pelo JN. Na coluna do IRS-Referência estão as metas de notícias, com base nos FRJ-Referência estipulados pelas agendas monitoradas. Inversamente, na Coluna do IRS-Apurado estão os números reais de notícias do JN, a partir dos quais será evidenciado o FRJ-Apurado de cada tema/subtema (o Fator de Relevância efetivamente dado pelo JN). A diferença entre elas representa o Percentual de Variação entre o desejado, expresso pelos valores de referência, e o real, expresso pelos valores apurados.

Tabela 4 – Fator de Relevância e Índice de Resolução Semântica (de Referência e Apurado) com Percentual de Variação por tema e subtema da rubrica Meio Ambiente no Jornal Nacional (nov/2016 a out/2017)

Temas

Subtemas

Fator de Relevância Jornalística (FRJ)

Índice de Resolução Semântica (IRS)

Percentual de Variação

De Referência

Apurado

De Referência

Apurado

Temperatura e
Mudanças Climáticas

Previsão Tempo

2,3

0,0

6,5

0,0

-100,0

Proteção/Saúde

3,3

1,4

9,3

4,0

-56,9

Ciência

4,8

1,8

13,4

5,0

-62,8

Comportamento

2,3

3,2

6,5

9,0

38,7

Outros

2,2

1,8

6,0

5,0

-17,0

Média do Tema

3,0

1,7

8,3

4,6

-44,9


Ocorrências

Naturais

4,0

40,6

11,1

113,0

915,8

Provocadas

4,5

18,3

12,5

51,0

307,5

Ação ambientalista

3,0

2,9

8,3

8,0

-4,1

Outros

2,0

2,5

5,6

7,0

25,8

Média do Tema

3,4

16,1

9,4

44,8

376,8

Governança Ambiental

Nacional

4,7

6,5

13,0

18,0

38,7

Internacional

4,3

3,2

12,1

9,0

-25,3

Disputas/ações

4,5

5,8

12,5

16,0

27,8

Outros

2,2

1,8

6,0

5,0

-17,0

Média do Tema

3,9

4,3

10,9

12,0

10,2


Inovação e Desenvolvimento

Sustentabilidade

4,7

1,8

13,0

5,0

-61,5

Agências e Empresas

3,0

0,0

8,3

0,0

-100,0

Ciência

3,7

2,5

10,2

7,0

-31,4

Ativismo

2,8

1,8

7,9

5,0

-36,5

Outros

2,0

0,0

5,6

0,0

-100,0

Média do Tema

3,2

1,2

9,0

3,4

-62,2

Biodiversidade

Flora

4,6

1,4

12,7

4,0

-68,6

Fauna

4,8

4,3

13,4

12,0

-10,7

Outros

2,2

0,0

6,0

0,0

-100,0

Média do Tema

3,9

1,9

10,7

5,3

-50,3

Resíduos Sólidos

Domiciliares

3,6

0,0

10,0

0,0

-100,0

Industriais

3,9

0,4

10,9

1,0

-90,8

Novas tecnologias

3,2

0,4

8,8

1,0

-88,6

Outros

2,2

0,0

6,0

0,0

-100,0

Média do Tema

3,2

0,2

8,9

0,5

-94,4

Produção de alimentos

Agrotóxicos

4,7

0,7

13,0

2,0

-84,6

Agroecologia

4,1

0,0

11,4

0,0

-100,0

Novas tecnologias

3,9

0,7

10,9

2,0

-81,6

Outros

2,2

0,7

6,0

2,0

-66,8

Tema

3,7

0,5

10,3

1,5

-85,5

Urbanismo

Planejamento

4,8

0,0

13,4

0,0

-100,0

Crescimento

4,1

0,0

11,4

0,0

-100,0

Qualidade de vida

4,7

2,2

13,0

6,0

-53,8

Outros

2,0

0,4

5,6

1,0

-82,0

Média do Tema

3,9

0,6

10,8

1,8

-83,8

Recursos Naturais

Água

4,8

6,5

13,4

18,0

33,9

Solo

3,9

0,4

10,9

1,0

-90,8

Ar

3,8

1,1

10,4

3,0

-71,2

Outros

2,2

0,0

6,0

0,0

-100,0

Média do Tema

3,7

2,0

10,2

5,5

-46,1

Matrizes Energéticas

Racionalização

3,6

0,7

10,0

2,0

-79,9

Alternativas

3,9

2,5

10,9

7,0

-35,7

Previsões

3,6

2,9

10,0

8,0

-19,7

Outros

2,0

1,4

5,6

4,0

-28,1

Média do Tema

3,3

1,9

9,1

5,3

-42,3

Somatório

 

142,9

122,6

397,5

341,0

-14,2

Desejável

Percentual de Variação de até 30% para mais ou menos em relação ao valor de Referência.

Tende à

Saturação

Percentual de Variação superior a 30% do valor de Referência até o limite de 300%.

Forte

Saturação

Percentual de Variação superior a 300% em relação ao valor de Referência.

Tende à

Retração

Percentual de Variação de -30% a -90% em relação ao valor de Referência.

Forte Retração

Percentual de Variação entre -90% e -100% (invisibilidade) em relação ao valor de Referência.

Na análise do Jornal Nacional, o macrotema Ocorrências (179 notícias) foi o que mais recebeu cobertura, em virtude de conter os dois microtemas mais noticiados: Ocorrências Naturais (113) e Provocadas (51). Essa dados demonstram a relevância de notícias factuais, como desastres, tragédias ou catástrofes ambientais. Na sequência, o macrotema Governança Ambiental (48 notícias), que reúne matérias sobre os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), muitas vezes em função do noticiário sobre ocorrências naturais ou provocadas. Igualmente, o destaque dessa cobertura está associado ao seu caráter factual, característica também apontada por Girardi, Loose e Steigleder (2020). O que é justificável, em parte, para um telejornal diário.

O que parece problemático na ênfase dada às ocorrências naturais e provocadas é a desproporção em relação a outros conteúdos, pouco ou nada explorados. Os FRJ’s apurados para esses dois microtemas foram 40,3 e 18,6, contra 4 e 4,5 de FRJ’s de Referência. Embora seja compreensível que esse tipo de evento extrapole padrões regulares de relevância, dada a sua excepcionalidade, o excesso pode revelar a ausência de reportagens que explorem o contexto e as relações existentes dos fatos ambientais. Sobretudo quando outros temas e microtemas de alta relevância são ausentes da cobertura. Um problema de gestão editorial.

Três macrotemas contêm número de notícias abaixo de 10: Urbanismo (7), Produção de Alimentos (6) e Resíduos Sólidos (2). O primeiro registra apenas duas reportagens gravadas, uma chamada para o programa dominical Fantástico e quatro notas curtas. Seus microtemas Planejamento e Crescimento foram avaliados como de alta relevância pelas agendas monitoradas, com fatores de relevância acima de 4 (4,8 e 4,1, respectivamente), mas não foram objeto de nenhuma notícia no período. No segundo macrotema, apenas duas matérias (IRS-Apurado) sobre o microtema Agrotóxicos, assunto que despontou na esteira dos movimentos sociais de contestação, a partir da década de 1960, e que tinha um IRS-Referência de 13. O FRJ-de Referência do microtema Agrotóxicos foi de 4,7, mas o FRJ-Apurado, de 0,7. E o terceiro teve somente duas notícias, embora o descarte de resíduos sólidos seja elencado por especialistas como um dos principais desafios da vida urbana, sobretudo em função da ampliação do consumo de produtos industrializados. O seu FRJ-de Referência foi 3,2, mas o apurado na cobertura do JN foi 0,2. Resíduos Domiciliares e Industriais tiveram um IRS-Referência de 10 e 10,8, respectivamente, mas apenas o segundo foi abordado em uma única notícia no ano.

A Tabela 4 evidencia, através do Percentual de Variação, os graus de correspondência entre os valores de referência e os apurados, seja para o Fator de Relevância seja para Índice de Resolução Semântica. Para extrair desse painel um juízo de qualidade sobre o conjunto da seleção temática do JN em sua agenda ambiental serão aplicados os padrões constantes na Tabela 5, baseados em percentuais de temas e microtemas situados nas faixas limite de desempenho (desejável e forte saturação/retração). As faixas intermediárias foram consideradas livres, pois ainda que representem excesso ou falta em relação ao desejável, operam com variações passíveis de acomodação, se os extremos estiverem controlados.

Tabela 5 – Padrão de desempenho para análise de Qualidade da Cobertura com base no grau de conformidade definido pelos indicadores FRJ e IRS de Referência e FRJ e IRS Apurados

Faixa de

desempenho

Desejável

Tende à

saturação

Tende à

retração

Forte

Saturação

Forte

retração

Ótimo

≥ 25%

Livre

≤ 25%

Bom

≥ 15%

Livre

≤ 35%

Regular

≥ 5 %

Livre

≤ 50%

Insuficiente

Qualquer resultado fora dos padrões acima.

O objetivo desses padrões é permitir uma distinção entre os níveis de cobertura, a fim de sinalizar a direção na qual devem ser empreendidos esforços para a qualificação da abordagem do JN. Com base nos dados da Tabela 6, constatou-se que no conjunto dos temas, apenas 10% ficaram na margem do desejável, o que é considerado nível regular (acima de 5% e menor do que 15%); e 20% tenderam à retração/saturação, considerado nível ótimo (menor que 25%). Entre o regular e o ótimo, o desempenho final recai sobre a faixa intermediária, considerado boa.

Tabela 6 – Resultados, por faixa de desempenho, do Jornal Nacional

Categoria

Total

Desejável

Tende à saturação (SAT) ou Retração (RET)

Tende à forte saturação (SAT) ou Retração (RET)

No.

%

SAT

RET

Total

%

SAT

RET

Total

%

No.

No.

No.

No.

Tema

10

1

10

0

7

7

70,0

1

1

2

20,0

Subtema

41

9

22

3

15

18

36,6

2

12

14

34,1

Na avaliação dos microtemas, 22% deles se situaram na faixa do desejável, compatível com o nível de desempenho bom (maior do que 15% e menor do que 25%); e 34,1% dos microtemas se situaram na faixa de forte saturação/retração, situando-se igualmente no nível de desempenho bom (abaixo de 35% e acima de 25%). Ambas as categorias alcançaram bom desempenho.

O diagnóstico experimental aponta que o JN produziu uma boa cobertura da agenda ambiental, considerando a seleção dos temas no período analisado. Em alguma medida, coincide com o diagnóstico posterior de Girardi, Loose e Steigleder (2020) sobre a transversalidade alcançada pela pauta do JN. Não se entrou aqui, contudo, no mérito se as notícias em si abordaram os temas e microtemas de forma correta, precisa e plural, esforço a ser realizado em etapas futuras de desenvolvimento dos métodos de avaliação de qualidade no âmbito do Qualijor/Lejor.

Considerações Finais

Três aspectos devem ser considerados sobre a metodologia proposta para a avaliação da cobertura ambiental do JN: o desenho em si do método e de sua capacidade de produzir diagnósticos válidos para o que se propõe; a necessária incorporação de agentes especializados da área ambiental na construção das ferramentas necessárias à presente avaliação; e o diagnóstico em si do JN, sobre a qualidade aferida de sua cobertura.

O método de avaliação do requisito relevância aplicado neste estudo está em fase de testes. Alguns aspectos precisam ser considerados para o seu aperfeiçoamento, como:

  • a unidade usada para mensurar os conteúdos abordados: neste estudo, foram usadas as unidades noticiosas, mas poderia ter sido usada a unidade tempo da notícia; nos dois casos, também poderiam ter sido criadas subdivisões em cada notícia, para refinar a percepção dos temas e subtemas abordados, considerando que uma única notícia pode explorar vários assuntos, ainda que superficialmente;
  • os padrões empregados no método, seja para definir os intervalos do Percentual de Variação (Tabela 4) seja para definir os padrões de desempenho final (Tabela 5 e 6) requerem mais simulações, a fim de se encontrar os intervalos mais significativos para definir as faixas de desempenho ou confirmar os intervalos até então usados;

O emprego mais efetivo da metodologia em desenvolvimento requer a necessária participação de agentes especializados da área ambiental, a fim de promover uma mais ajustada configuração temática à realidade do setor, em cada momento. A construção de equipes multidisciplinares ajudará não apenas o melhor desenho da Matriz de Relevância, mas também na percepção dos movimentos governamentais e da sociedade civil, com suas ações e seus atores, fundamental para a melhor prospecção dos fatores de relevância a orientar o padrão de cobertura.

Por fim, o diagnóstico experimental produzido, conforme afirmado desde o início deste artigo, teve como finalidade testar o método, operando todas as suas variáveis. Apesar disso, os indicativos oferecidos pelo resultado sugerem méritos e deméritos da cobertura que não podem ser ignorados. O relativo equilíbrio que o JN alcançou em sua cobertura, no tratamento proporcional dos temas à relevância percebida pelas agendas monitoradas, contrasta com assuntos excessivamente noticiados por um lado e outros pouco ou nada explorados. Tal diagnóstico, com todas as suas limitações, pode ajudar os gestores do telejornal na reflexão sobre a composição de sua agenda ambiental, da mesma forma que municia segmentos da área ambiental na implementação de ações de accountability com vistas ao aperfeiçoamento do noticiário avaliado.

Referências

Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT NBR ISO 9000:2015. Sistemas de Gestão da Qualidade – Fundamentos e vocabulário. São Paulo/SP: ABNT.

Bardin, L. (1977) Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70. 229 p.

Barros, A. T.; Sousa, J. P. (2010. Jornalismo e ambiente: análise de investigações realizadas no Brasil e em Portugal. Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa, p. 45-77.

Brandi, D. P.(2018) Agenda do meio ambiente no Jornal Nacional: avaliação da qualidade da relevância temática. Dissertação (Mestrado em Comunicação). Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Universidade Federal de Sergipe.

Brasil. Plano Plurianual 2016-2019. Recuperado de: http://editor.planejamento.gov.br/assuntos/planeja/plano-plurianual

Brasil. Constituição da República Federativa do Brasil. 1988. Recuperado de: http://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/con1988_15.09.2015/ind.asp

Cohen, B. (1963) The press and the foreign policy. Princeton: Princeton University.

Comissão mundial sobre meio ambiente e desenvolvimento (1991). Nosso Futuro Comum. ٢ª ed. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas.

Confederação Nacional da Indústria (CNI) (2018). Retratos da sociedade brasileira: problemas e prioridades do Brasil para 2018. Recuperado de: https://bucket-gw-cni-static-cms-si.s3.amazonaws.com/media/filer_public/d8/80/d8809d69-ae2c-47f2-8a4b-30cde9d92b11/retratosdasociedadebrasileira_41_problemaseprioridadespara2018_v1.pdf Acesso em: 30 mar. 2018.

Cruz, I. (2013) La calidad de la información sobre médio ambiente. In: Mompart, J.; Lozano, J.; Sampio (Org.) (2013). La calidad periodística: teorias, investigaciones y sugerencias profesionales. Castelló de la Plana [etc.]: Publicacions de la Universitat Jaume I [etc.], D.L.

Feitoza, L. N. S. (2016). Relevância jornalística: análise e teste de ferramenta para fins de avaliação de qualidade e accountability. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade Federal de Sergipe (UFS), São Cristóvão.

Fengler, S., Eberwein, T., Mazzoleni, G., Porlezza, C., Russ-Mohl, S.. (org.). (2014) Journalists and Media Accountability: An International Study of News People in the Digital Age. New York: Peter Lang.

Fidalgo, A. (2004). “Sintaxe e Semântica das Notícias Online: Para um Jornalismo Assente em Base de Dados”. In.: LEMOS, A. et al.(2004) Mídia.br. Porto Alegre: Editora Sulina, 2004. (p. 180-192). Recuperado de: http://www.bocc.uff.br/pag/fidalgo-jornalismo-base-dados.html

Giddens, A. (1991). As consequências da modernidade. São Paulo: Editora Unesp. 177 p.

Girardi, I.; LOOSE, E.; STEIGLEDER, D.(2020) Novos rumos da cobertura ambiental brasileira: um estudo a partir do Jornal Nacional. Revista Trayectorias Humanas Transcontinentales (TraHs), n. 7. França: Université de Limoges. Recuperado de: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/211648/001115361.pdf?sequence=1&isAllowed=y

Guerra, J. L. (2008). O percurso interpretativo na produção da notícia. São Cristóvão: Edi-tora UFS; Aracaju: Fundação Oviêdo Teixeira, 2008. 290 p.

Guerra, J. L. (2016). Guia da Agenda Jornalística (GAJ) na perspectiva de uma proposta de Pesquisa Aplicada em Jornalismo (PAJ). Brazilian Journalismo Research, Brasília, v. 12, n. 3.

Guerra. J. L.. (2020). Ranking Q-Avalia da qualidade jornalística Brasil-Portugal 2018: Uma avaliação experimental. Estudos em Jornalismo e Mídia. Vol. 17, nº 1 Janeiro a Junho, p. 54-74.

Guerra, J. L. & Feitoza, L. N. S.. (2020). Relevância jornalística: conceito, fundamentos e aplicação. Linguagem em (Dis)curso, 20(2), 401-419. Epub 07 de setembro de 2020.https://doi.org/10.1590/1982-4017-200210-10419

McCombs, M. & Reynolds, A.(2002). News influence on our pictures of the world. In: Bryant, J. (Ed.) % Zillmann, D. (Ed.). Media effects: Advances in theory and research, 2nd ed., p. 1-18. Mahwah, NJ, US: Lawrence Erlbaum Associates Publishers, x, 634 p.

McCombs, M. (2009). A Teoria da Agenda: a mídia e a opinião pública. Petropólis, RJ: Vozes.

McQuail, D. (1997). Audience Analysis. London: Sage Publication.

Paulino, F. O. (2009). Responsabilidade Social da Mídia: Análise conceitual e perspectivas de aplicação no Brasil, Portugal e Espanha. Brasília: Casa das Musa. 263 p.

Silva, M. S. (2019). Agenda jornalística de saúde no Jornal Nacional: Avaliação de qualidade e proposta de gestão editorial com base no critério de relevância. 2019. 196 f Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade Federal de Sergipe (UFS), São Cristóvão.

Slack, N; Chambers, S.; Johnston, R. (2007). Administração da produção. 2. ed. Tradução: Maria Teresa Corrêa de Oliveira e Fábio Alher. Revisão Técnica: Henrique Luiz Corrêa. São Paulo: Atlas. 747 p.

Sperber, D. & Wilson, D. (1995) Relevance: communication and cognition. 2 ed. Blacwell,.

Traquina, N. (2001). O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo: Editora Unisinos. 220 p.

Ungaretti, W (1998) Netto. Empresariado e ambientalismo: uma análise de conteúdo da Gazeta Mercantil. São Paulo: Ed. Annablume.

Weaver, D. & Elliot, S.N. (1985) Who sets the agenda for the media? A study of local agend-setting building. Journalism Quaterly, 62, p. 87-94.


1 Foi acordado com os especialistas a manutenção do anonimato, haja vista que o interesse da pesquisa era apenas coletar suas impressões qualificadas para simular um método de auscultação da agenda pública. A eles, os autores registram seu agradecimento pela valiosa colaboração prestada.

Tabela 1 – Fator de Relevância Jornalística de Referência atribuído por agendas monitoradas

Enlaces refback

  • No hay ningún enlace refback.




Copyright (c) 2020 Josenildo Luiz Guerra

Licencia de Creative Commons
Este obra está bajo una licencia de Creative Commons Reconocimiento-SinObraDerivada 4.0 Internacional.

convocatorias

Es una edición cuatrimestral creada y editada por CIESPAL.
Av. Diego de Almagro N32-133 y Andrade Marín.
Quito-Ecuador.

Síguenos en:

convocatorias

convocatorias

Revista Chasqui 2018
está bajo Licencia Creative Commons Atribución-SinDerivar 4.0 Internacional.