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Abertura

Los desafíos de la cobertura ambiental en tiempos de crisis

Débora Gallas

deboragallas@gmail.com

Ângela Camana

angela.camana@ufrgs.br

Ilza girardi

ilza.girardi@ufrgs.br

A cobertura de temas ambientais, historicamente pouco e mal realizada, na última década vêm se defrontando com novas questões, as quais dizem dos tempos nos quais vivemos. Se em função da especificidade do tema, muitas vezes demasiado abstrato e localizado, a formação jornalística não encontra ferramentas para conectar com o noticiário ancorado no factual, quando versões pouco ortodoxas acerca de questões ambientais emergem e ganham força, surge um dilema: qual o limite de reproduzir discursos de fontes oficiais, independentemente de sua relevância e precisão, em nome da dita objetividade jornalística? Assim, a guerra de narrativas que assola o planeta tem tornado ainda mais árdua a tarefa de narrar o mundo: o negacionismo climático e os movimentos que advogam o terraplanismo fazem terra arrasada de debates que pareciam superados, tornando mais uma perspectiva algo que é consensual no campo científico. Não obstante a gravidade desta situação quando o que está em jogo são temas complexos e de alta abstração, recentemente enfrentamos também a recusa do reconhecimento de questões absolutamente materiais, como quando, diante das queimadas que destroem o Pantanal e a Amazônia, deixando um rastro visível de mortes e destruição, há quem diga que não há fogo. 

A pandemia provocada pela Covid-19, de forma trágica, coloca o mundo diante do espelho, exigindo que reconheçamos os possíveis efeitos inesperados de escolhas feitas até aqui. Enquanto escrevemos esta apresentação, mais de um milhão de vidas humanas foram perdidas no planeta, 150 mil delas só em nosso país, o Brasil. O jornalismo diário dedica-se a acompanhar esta tragédia humanitária de enormes proporções e, mais recentemente, a especular quando surgirá uma vacina eficaz contra a doença: os testes têm sido acelerados e dúvidas sobre a segurança desta possível resposta científica surgem. O senso de urgência por soluções não é desconhecido para quem acompanha a temática ambiental. Pesquisas realizadas no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (GPJA) UFRGS/CNPq, do qual fazemos parte, indicam este caráter ávido por respostas quando ocorre um desastre; no entanto, não há o mesmo engajamento para fiscalizar ações, muito menos para problematizar escolhas políticas que se apresentam como meramente técnicas e/ou com foco no lucro de alguns em detrimento de outros. 

A sucessão e sobreposição de tensões ambientais, políticas e éticas informam que já não se tratam de crises, mas de um ponto de inflexão planetário, o qual evidencia as interdependências e as conexões entre fenômenos. Fazer jornalismo, neste contexto de instabilidade próprio aos momentos de transição, é um desafio. Quiçá seja necessário, então, que pensemos em um novo fazer, que responda às tensões de nosso tempo. Neste sentido, há que se atentar para as perspectivas que emergem do Sul global, situadas e engajadas com epistemologias próprias.

Decidimos formular a proposta para esta edição temática, por um lado, exaustas pelo retrocesso que o ano de 2019 representou ao nosso país, Brasil, na área ambiental: rompimento da barragem de rejeitos de minério da empresa Vale no município de Brumadinho, em Minas Gerais, que matou 270 pessoas e comprometeu ecossistemas e bacias hidrográficas da Mata Atlântica; recorde de registros de queimadas na Amazônia; contaminação de óleo por milhares de quilômetros de nosso litoral; liberação de agrotóxicos sabidamente perigosos. Todos esses processos intensificados pelo desmonte das políticas públicas e órgão ambientais a partir do início da gestão de Jair Bolsonaro como presidente, que foram agravados em 2020.

Por outro lado, encontramos motivação também em importantes experiências de reflexão e ação que emergiram do GPJA desde a realização, em 2018, da quarta edição do evento que organizamos bienalmente, o Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental (ENPJA). Neste período, lançamos o e-book gratuito Jornalismo Ambiental: teoria e prática, voltado ao ensino do jornalismo ambiental nas universidades e em outros espaços educativos. Estamos no segundo ano do Observatório de Jornalismo Ambiental, projeto de análise semanal da cobertura sobre meio ambiente no Brasil. E, mais recentemente, lançamos o Minimanual para a cobertura jornalística das mudanças climáticas, em parceria com o Grupo de Pesquisa Estudos de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria (Brasil) e o Grupo de Investigación Mediación Dialéctica de la Comunicación Social da Universidad Complutense de Madrid (Espanha), publicação online de acesso gratuito destinada principalmente a jornalistas que reportam as questões relacionadas à emergência climática.

Embora a institucionalização do GPJA tenha ocorrido em 2008, seus integrantes acumulam trajetórias importantes para a intersecção entre jornalismo e meio ambiente no Brasil. Registramos: a participação na Rio 92, a fundação do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ/RS), o surgimento das feiras ecológicas e a luta contra os agrotóxicos, sempre em diálogo com experiências semelhantes no continente.

Além de tais inquietações, este dossiê emerge também como uma celebração da trajetória do ENPJA, que em agosto de 2020 completa uma década de bons encontros entre pesquisadores, jornalistas e cidadãos implicados com a causa ambiental no Brasil e na América Latina e Caribe.

O ENPJA surgiu como um braço do Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental para mostras acadêmicas, mas a relevância do tema tornou-se demanda por um espaço e programação próprias para pesquisadores a partir da segunda década do século XXI. Infelizmente, a pandemia da Covid-19 nos fez tomar a difícil decisão de adiar por tempo indeterminado a quinta edição do evento. Apesar de as pesquisadoras e os pesquisadores que circundam nosso grupo se dedicarem a encontrar formas de partilhar informações sobre seus trabalhos através de ambientes virtuais, ansiamos pelo retorno da proximidade física quando for seguro, a fim de que possamos voltar nossa atenção integral às trocas de saberes com nossos interlocutores.

Esta edição temática da Revista Chasqui, então, é uma tentativa de amplificar este esforço de resistência, provocando mais pesquisadores e pesquisadoras a contribuírem com o diagnóstico sobre os conflitos que ameaçam a diversidade biológica e cultural em nosso planeta e o papel do jornalismo na conexão entre diferentes maneiras de conhecer e habitar o mundo. Estamos em um período de intensas transformações que, contraditoriamente, deixam tudo em suspenso. Para onde seguir?

A proposição deste dossiê temático surge da compreensão de que a experiência de numerosas situações limite é especialmente sentida na América Latina, região geográfica e culturalmente construída sob a égide do neoextrativismo que produz predação e desigualdade. Este modelo produtivo de grande escala, baseado na exploração dos sujeitos e da natureza, é tributário do acontecimento colonial, o que o torna repleto de história e de historicidade, uma especificidade que não pode ser obliterada. Como, então, o principal contador de histórias de nosso tempo - qual seja, o jornalismo - repercute tais situações?  

Neste sentido, a acolhida do CIESPAL a esta temática é gratificante. Entendemos a comunicação como um campo em construção, que é intrinsecamente constituído por diálogos interdisciplinares, mas também instado a se posicionar enquanto ciência fundamental para a formação de sujeitos críticos e conscientes, fugindo à armadilha da instrumentalização. Em seis décadas de trajetória, o CIESPAL mediou este processo em nosso continente e qualificou o processo de aprendizagem de diferentes gerações de pesquisadores. Em tempos nos quais comunicadores disputam a atenção da sociedade com desinformações em massa, este trabalho de fomento à ciência faz-se ainda mais necessário.

O trabalho de escolha e edição dos textos que compõem este dossiê foi, ao mesmo tempo, árduo e gratificante: ficamos surpresas com a quantidade e a qualidade das reflexões recebidas, as quais vêm de lugares geográficos e sociais muito distintos. A despeito da diversidade, importante notar que certos temas se repetem, sobretudo a questão climática e os desastres ambientais, o que dá conta do espírito de nosso tempo. Acreditamos que os artigos selecionados representam a possibilidade de articulação entre temas e problemas atuais, contando com um olhar multidimensional e situado na América Latina. Com uma leitura atenta, este dossiê fornecerá aos leitores e leitoras pistas valiosas para a formação de um panorama da pesquisa sobre jornalismo ambiental, com seus consensos e suas lacunas. 

Em Cobertura ambiental durante a pandemia no Brasil e em Portugal: explorando crises e (des)conexões, Eloisa Beling Loose e Alice Dutra Balbé propõem relacionar a emergência climática aos aspectos ambientais relacionados à pandemia da Covid-19 e que também colocam nossos sistemas em vulnerabilidade para outras doenças ainda desconhecidas. Trata-se de uma discussão urgente para o contexto em que vivemos, de adaptação às condições ambientais como consequência das transformações do planeta pela atividade das sociedades humanas, e sobre a qual o jornalismo deve atentar. Quando a reflexão sobre as conexões entre tais fenômenos está restrita a pesquisas científicas, é necessário averiguar as limitações da prática jornalística no processo de socialização do conhecimento.

Um caminho possível é reconhecer a diversidade de enquadramentos temáticos que envolvem tais problemas de abrangência global. Neste sentido, Julymek Freyle e Jesus Antonio Arroyave Cabrera evidenciam a urgência de avaliar a abordagem sobre mudanças climáticas nos meios de comunicação em Cobertura del cambio climático en los medios digitales de América Latina. O artigo ressalta a complexidade do tema, que é permeado pelas decisões políticas dos países e pelas discussões mediadas pelas Conferências do Clima da Organização das Nações Unidas. Porém, menciona as particularidades da discussão em nosso continente e a importância de ampliação do enfoque geográfico para o âmbito regional.

Se o texto que o precede informa uma discussão mais ampla, em Cambio Climático: tratamiento mediático en televisoras locales temos a oportunidade de conferir uma análise mais situada: trata-se da cobertura sobre mudanças climáticas realizada por veículos da cidade de Loja, no Equador. Com uma abordagem multimetodológica, Jéfferson Alejandro Collaguazo, Vanessa Karina Duque e Hever Sánchez oferecem um panorama da escassa abordagem sobre o tema na região, a despeito dos veículos locais serem atores privilegiados na comunicação dos riscos climáticos, dada a proximidade com as comunidades. 

Ainda em torno ao tema das mudanças climáticas, o artigo seguinte nos oferece um panorama sobre o papel do jornalismo local no enfrentamento de crises que se acumulam no contexto urbano. Porto Alegre e a mudança climática: abordagens do jornalismo local na construção da resiliência, de Eliege Maria Fante, Cláudia Herte de Moraes e Mathias Lengert, discutem o que é possível depreender a partir da cobertura jornalística frente ao aumento na frequência de eventos extremos durante os últimos cinco anos na cidade brasileira de Porto Alegre. O discurso jornalístico de fato abarca a complexidade do real? Ou a discussão sobre mitigação e adaptação ainda permanece distante do cotidiano da cidade, sem espaço nas páginas dos jornais?

Se os textos anteriores, apesar das diferenças geográficas e de objeto, apresentam pontos comuns, em Indicadores para análise das narrativas jornalísticas sobre desastres: em busca de invisibilidades e saliências temos uma abordagem justamente das recorrências e obliterações comuns ao conteúdo sobre desastres. Márcia Franz Amaral, Carlos Lozano Ascencio e Esther Puertas Cristobal oferecem uma contribuição inovadora aos estudos em jornalismo ambiental, delineando pistas para a criação de um esquema analítico. A partir das principais recorrências observadas, as pesquisadoras propõem uma tipologia da cobertura de desastres ambientais, a qual merece ser acolhida e testada em futuras investigações na temática, associadas a variadas matrizes metodológicas. 

Deslocando a discussão sobre cobertura ambiental, no Brasil geralmente centrada no jornalismo de referência e nos conglomerados de mídia, Katarini Giroldo Miguel nos convida a um outro olhar em Manifesto sobre as práticas comunicativas do Greenpeace Brasil e Instituto Socioambiental em cenários de tensionamentos. Ao adotar o midiativismo socioambiental como tema de reflexão, a pesquisadora questiona quais os limites desta prática em um cenário de ataques governamentais. Qual a especificidade do conteúdo produzido em organizações ambientalistas? Quais suas possibilidades? Neste artigo, há um diagnóstico da informação ofertada por duas das maiores entidades presentes no Brasil, de forma que algumas pistas para a qualificação do conteúdo, sobretudo torná-lo mais propositivo, estão lançadas. 

Assim como no artigo anterior, o texto Risco socioambiental urbano e barragens de contenção de minérios em jornais digitais no Brasil dedica seu olhar a veículos desconectados dos grandes conglomerados de comunicação, destacando a abordagem destes jornais acerca dos riscos tecnológicos que afligem as cidades, tema importante sobretudo quando consideramos os recentes desastres provocados pela mineração brasileira. Em sua análise, notam que os veículos estudados não só produzem informações de qualidade sobre tragédias, como também noticiam os perigos que as precedem, alertando as comunidades. No entanto, Myrian Regina Del Vecchio De Lima, Vanessa de Cassia Witzki Colatusso e Ricardo Aurelio Colatusso observam que ainda há que se verificar se o conteúdo gera engajamento e ações por parte do público, conclusão que pavimenta o caminho para novos estudos neste sentido. 

A contribuição de Josenildo Luiz Guerra e Daniel Pereira Brandi está relacionada à aplicação de uma metodologia ainda em desenvolvimento, o Guia da Agenda Jornalística. A partir desta proposta, A avaliação de qualidade experimental do requisito relevância na agenda ambiental do JN (Brasil) concentra-se na análise dos parâmetros de relevância definidos pela organização jornalística e propõe um indicador para avaliar a proporcionalidade dos temas abordados em determinada área temática. Trata-se de uma importante iniciativa, que pode servir de enfrentamento a um problema constatado pelos demais pesquisadores que compõem esta edição temática: o reduzido espaço noticiário para abordagem da questão ambiental que supere o factual.

Em  Análisis del fomento de comportamientos proambientales en artículos periodísticos sobre problemas relacionados con el plástico, Oscar Julián Cuesta Moreno e Sandra Mireya Melendez Labrador ressaltam o compromisso do jornalismo com a educação e conscientização do público a partir da abordagem sobre o impacto dos plásticos no ambiente natural. A análise do jornal El Tiempo, da Colômbia, permite-nos entender a importância da informação contextualizada e a necessidade de uma “recolocação epistemológica” no jornalismo se quisermos mobilizar as pessoas a serem parte da solução. Isto porque o processo de fortalecimento de uma consciência ambiental pressupõe o entendimento sobre as consequências do atual modelo de produção e consumo em que estamos imersos em âmbito global, o qual leva os bens naturais à exaustão e coloca em xeque nosso próprio futuro.

Por fim, em Una aproximación al periodismo en contextos de conflictividad socio-ambiental, Juan Guillermo Osorio reflete sobre a invisibilidade dos conflitos ambientais na imprensa colombiana, especialmente os que envolvem o departamento de Huila. Em um debate que encontra ecos profundos em om outros contextos latino-americanos, igualmente afetados pelo neoextrativimo predatório, o texto oferece uma crítica ao jornalismo cooptado e omisso face às violações, argumentando que negar o direito à informação é também uma violência. Trata-se de uma reflexão fundamental aos nossos tempos, convocando o fazer jornalístico a pensar seu papel e sua potência nas disputas que assolam os territórios.

Os textos aqui reunidos são uma amostra de discussões que se fazem urgentes, embora evidentemente não deem conta de todo o complexo quadro de desafios que o jornalismo ambiental enfrenta nestes tempos de transformação. Esperamos que as leitoras e leitores desta edição temática sintam-se provocados a dar continuidade ao diálogo aqui iniciado. Boa leitura!

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