Monografico_2_a_infodemia

A infodemia da “gripezinha”: uma análise sobre desinformação e coronavírus no Brasil

“Little flu” infodemic: an analysis on disinformation and coronavirus in Brazil

Infodemia de la “pequeña gripe”: un análisis sobre desinformación y coronavirus en Brasil

Juliana Alcantara

Universidade de Coimbra, Portugal / alc.juli@gmail.com

Ricardo Ribeiro Ferreira

The University of Edinburgh / ricardo.rf@ed.ac.uk

Chasqui. Revista Latinoamericana de Comunicación

N.º 145, diciembre 2020 - marzo 2021 (Sección Monográfico, pp. 137-162)

ISSN 1390-1079 / e-ISSN 1390-924X

Ecuador: CIESPAL

Recibido: 22-09-2020 / Aprobado: 02-12-2020

Resumo

A presente investigação tem por objetivo analisar o fluxo de desinformação no contexto da pandemia de covid-19 no Brasil. A análise é desenvolvida a partir de uma abordagem quantitativa, com recurso à análise documental. A amostra é formada por publicações que circularam em redes sociais entre janeiro e maio de 2020. Neste período, à crise de saúde pública somou-se uma crise política no país, o que assinala a discussão dos principais temas no debate público. Os resultados demonstram que o assunto “coronavírus” cresce progressivamente ao longo dos meses analisados. Contudo, há significativas alterações nos enquadramentos do tema, que gradativamente passam a refletir a disputa política criada em torno da crise pandémica.

Palavras-chave: desinformação; coronavírus; redes sociais; comunicação; saúde pública

Abstract

The present investigation aims to analyse the flow of disinformation in the context of the covid-19 pandemic in Brazil. The analysis is developed from a quantitative approach, using documental analysis. The sample consists of publications that circulated on social media between January and May 2020. In this period, a political crisis was added to the public health crisis in the country, which highlights the discussion of the main themes in the public debate. The results demonstrate that the topic “coronavirus” grows progressively over the months analysed. However, there are significant changes in the frameworks of the theme, which gradually come to reflect the political dispute created around the pandemic crisis.

Keywords: disinformation; coronavirus; social networks; communication; public health

Resumen

La presente investigación tiene como objetivo analizar el flujo de desinformación en el contexto de la pandemia del covid-19 en Brasil. El análisis se desarrolla desde un enfoque cuantitativo, utilizando análisis documental. La muestra está formada por publicaciones que circularon en redes sociales entre enero y mayo de 2020. En este período, una crisis política se sumó a la crisis de salud pública en el país, lo que resalta la discusión de los principales temas en el debate público. Los resultados muestran que el tema “coronavirus” crece progresivamente a lo largo de los meses analizados. Sin embargo, hay cambios significativos en los marcos del tema, que gradualmente vienen a reflejar la disputa política creada en torno a la crisis pandémica.

Palabras clave: desinformación; coronavirus; redes sociales; comunicación; salud pública

1. Introdução

A pandemia do novo coronavírus apresenta-se como uma ameaça singular não apenas por surgir em inaudito nível de globalização, que facilita a transmissão física do vírus no plano sanitário, mas também por se tratar de um surto em contexto de profundas transformações nas dinâmicas comunicacionais e políticas. O alerta do diretor geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, para o risco da “infodemia” mediante a desinformação que se espalhou por vários países já previa uma simbiose entre o SARS-CoV-2 e o distúrbio informacional (Wardle & Derakhshan, 2017), o que se acentuou em contextos mais específicos.

A comunicação social é de fator incontestável na influência de comportamentos ligados à saúde (Lupton, 2003; Marinescu & Mitu, 2016; Seale, 2003; Lyons, 2000). É através dos media que se aprende a lidar com os riscos e as ameaças, terreno em que as subjetividades são formadas, assim como opiniões e perceções sobre o seu próprio corpo, sobre o corpo do outro e dos outros, com implicações que podem protegê-lo ou negligenciá-lo. A esse aspeto de interferência na vida quotidiana, e mais especialmente em se tratando de saúde pública, o corpo por vezes serve de plataforma política numa relação de poder estabelecida através do discurso (Lupton, 2003; Alcantara, 2019). No campo informacional que vivemos neste início de século, a comunicação de massa partilha espaço com a desinformação que se espalha num contexto ímpar e é capaz de moldar pensamentos e ações.

Conteúdos falsos tendem a causar danos reais, sobretudo quando informações credíveis são essenciais para conter contaminações. Tendo em conta a lógica de Slavoj Zizek (2020), que fala de um possível colapso no mercado causado tanto por quem acredita em uma determinada fake news quanto por quem não acredita, o simples facto de algum conteúdo influenciar alguém a comprar mais papel higiénico durante a pandemia pode levar a uma reação em cadeia, inclusive entre os mais críticos. Ao pensar que “já que estão todos a comprar, é capaz de faltar, então é melhor que eu compre antes que acabe”, os que não acreditam nas fake news passam a ser impactados e favorecem outros tipos de repercussão económico-social.

No caso do Brasil, à crise de saúde pública somou-se uma crise política. Em menos de dois meses, dois ministros da Saúde pediram demissão, sob um presidente que publicamente descredibiliza a ciência, enquanto o país apresenta um crescimento exponencial de contaminações e vítimas fatais. Uma das mais emblemáticas frases de Jair Bolsonaro ao afirmar que a doença seria uma “gripezinha” foi declarada em março de 2020 (Uribe, Chaib & Coletta, 2020). Até o dia 31 de maio, o Ministério da Saúde brasileiro registou 29.314 mortes em decorrência da infeção pelo novo coronavírus (Ministério da Saúde, 2020). Os dados oficiais são confirmados por teste, mas também é reconhecida a existência de ampla subnotificação.

O que se pretende neste artigo é investigar os padrões desinformativos que circularam no Brasil nos primeiros meses da pandemia de covid-19, entre janeiro a maio de 2020. Para isso, acontecimentos políticos serão contextualizados e as pesquisas internacionais serão expostas na primeira parte. Seguidamente, na análise e na discussão de resultados da pesquisa quantitativa discutem-se as recorrências que criaram padrões nas narrativas desinformativas e que constituem o debate no espaço público.

Desinformação, saúde e covid-19

Diversas investigações mostram transformações profundas no ecossistema mediático (Siapera, 2013; Chadwick, 2017). A utilização das redes sociais como fonte de notícias cresceu significativamente (Newman et al. 2019), enquanto o jornalismo teve suas funções sociais e credibilidade deteriorados (Camponez, 2018; Norris, 2011). Essas novas dinâmicas comunicacionais comprometem o debate público e impulsionam campanhas de desinformação (Alaphilippe et al., 2019; Bradshaw & Howard, 2019; Keller et al., 2019; Bennett & Livingston, 2018).

Embora a definição de desinformação seja complexa e ainda seja objeto de debate que acompanha as próprias alterações em curso contínuo no ecossistema mediático, para os propósitos deste estudo, adotamos o conceito que pode ser descrito como um conteúdo impreciso ou manipulado, que é disseminado intencionalmente (Keller et al., 2019; Wardle & Derakhshan, 2017; Weedon, Nuland & Stamos, 2017), incluindo não apenas conteúdos inteiramente fabricados, mas também os conteúdos falsos por conceção e a combinação de dados falsos e verdadeiros, em múltiplas nuances (Gelfert, 2018; Berghel, 2017; Yap, Snyder & Drye, 2018).

Esta definição abarca a heterogeneidade de formatos e a complexidade das narrativas que constituem o fenómeno, em sua mais recente expressão e aprimoramento. Ou seja, a desinformação pode incluir conteúdo falso que imita os media jornalísticos de legado ou pode envolver métodos mais subtis, como false flag operations, fornecer citações ou histórias imprecisas a intermediários inocentes ou amplificar conscientemente informações tendenciosas ou enganosas. Neste sentido, como demonstrado em Ferreira (2019, p. 136), “mais do que uma acepção binária da realidade, a desinformação subentende uma essência complexa e matizada, que compreende diversas motivações, diferentes efeitos ou mesmo diferentes níveis de adesão ou correspondência à verdade”.

Investigações têm se concentrado na problemática da desinformação envolvendo questões de saúde pública e a covid-19. Académicos da área da saúde (Mian & Khan, 2020; Kouzy et al., 2020; Almeida et al., 2020; Chong et al., 2020) e da comunicação vêm expressando suas preocupações desde o início da pandemia (Moreno et al., 2020; Singh et al., 2020; Zarocostas, 2020; Ricard & Medeiros, 2020). Mas esse fluxo de desinformação não é novidade nos assuntos de saúde; produtos antitabaco são alvo constante de conteúdos falsos (Chou, Oh & Klein, 2018; Thun, 2003). O mesmo acontece em contextos de epidemia, como a da Sida/HIV (Sukhankin, 2020), da SARS (Zhuge & Shi, 2003), da Febre Amarela (Sacramento & Paiva, 2020), da Zika (Ortiz-Martínez & Jiménez-Arcia, 2017, Xu, Chen & Safarnejad, 2020) e do HPV (Zimet et al., 2013; Larson, 2018). Tomando como exemplo está um caso ocorrido em 1983, quando através de um jornal indiano iniciou-se um rumor de que os Estados Unidos haviam criado a Sida/HIV. Anos depois, as especulações que o vírus Zika e as doenças como o cancro, a sífilis e a gripe espanhola eram armas biológicas norte-americanas também circularam na Rússia (Sukhankin, 2020).

As desinformações baseadas em soluções simples, como o uso de plantas medicinais, por exemplo, servem para idealizar uma panaceia para doenças e meios de contaminação complexos. Alguns conteúdos analisados no Twitter chegavam a relacionar o tratamento das doenças transmitidas por mosquitos, tais como a dengue, a malária e a Zika, a plantas medicinais (Ortiz-Martínez & Jiménez-Arcia, 2017), assim como o Ébola que poderia ser tratado e curado com a ingestão de ewedu, uma planta comumente usada na Nigéria para a preparação de sopas e guisados. A transfusão de sangue e a ingestão de água salgada também entraram no rol de soluções quase que milagrosas para reestabelecer a saúde dos doentes contaminados pelo vírus (Oyeyemi, Gabarron & Wynn, 2014).

Acreditar ou desacreditar na ciência impulsiona atitudes e comportamentos de risco. O simples facto de não haver comprovações científicas para algumas questões sanitárias gera terreno fértil para o aparecimento de promessas de cura, num cenário que foi potencializado não só com o advento da internet, mas principalmente com a forma como as redes sociais foram construídas. É abundante a partilha de conteúdos enganosos num sistema com efeito da câmara de eco. Assim sendo, a probabilidade das pessoas se abastecerem e munirem as redes com crenças individuais e preconceitos é igualmente enorme. Neste círculo fechado, trocas de pontos de vista são praticamente inexistentes (Chou, Oh & Klein, 2018). Para se ter uma ideia da complexidade do tema, um estudo direcionado ao contexto estadunidense mostrou que a concordância das pessoas em ficarem em casa durante as políticas de lockdown estabelecidas foi menor nos locais onde havia mais céticos às alterações climáticas. Os resultados mostraram a relação entre a crença na ciência e as posições partidárias pontuando diferenças entre aqueles que eram democratas e aqueles que eram republicanos (Brzezinski et al., 2020).

Os comportamentos relacionados com a covid-19 são cíclicos e podem ser explicados por um conjunto de fatores. A crise de confiança nos media, a polarização política e a ordenação social acabam por reforçar as discrepâncias nas informações sobre o vírus e a doença. Segundo Young e Bleakley (2020, p. 17), este processo de receção de mensagem-atitude se retroalimenta e é motivado pelas pessoas que encorajam a sua rede interpessoal a agir de determinada maneira.

Ademais, acreditar ou desacreditar em conteúdos enganosos que descredibilizam a ciência também tem outras consequências além da saúde coletiva e individual. O povo chinês foi alvo de xenofobia numa situação que se generalizou no Japão por conta de desinformação a respeito de que passageiros de Wuhan, que teriam apresentado febre, teriam escapado da quarentena e estariam no Aeroporto Internacional de Kansai. O aeroporto chegou a negar o acontecido, mas a hashtag #ChineseDon’tComeToJapan alcançou o Trending Topics no Twitter. O rótulo que os visitantes chineses encararam os caracterizavam como sujos, insensíveis e bioterroristas (Shimizu, 2020), estereótipos estes que foram reafirmados por vezes pelo presidente norte-americano Donald Trump (Rogers, Jakes & Swanson, 2020). Ele inclusive foi o responsável por disseminar informações sem embasamento científico, como o incentivo que fez pelo uso da hidroxicloroquina (Gabler & Keller, 2020) e pela sugestão de injetar desinfetante para “limpar os pulmões”, o que foi aceite por algumas pessoas e que, conforme foi noticiado, tiveram de ser hospitalizadas por intoxicação (Epstein, 2020).

O discurso de ódio, que explora o ambiente online através de comunidades, marca o tom das mensagens sobre a covid-19 desde o início da pandemia. Em particular, grupos de neonazis e outros extremistas publicam narrativas pejorativas sobre saúde pública, com o intuito de transpor a violência para o offline. Algumas postagens culpam os judeus e os imigrantes por inventarem e espalharem o vírus, e outras planeiam ataques aos socorristas de emergência que trabalhavam no front da crise sanitária (Velásquez et al., 2020).

Uma pesquisa de âmbito mundial aponta que em janeiro de 2020 o debate no Twitter sobre o coronavírus estava ainda em crescimento, o que não é surpreendente porque foi neste mês que o número de casos começou a aumentar, tendo sido o primeiro paciente diagnosticado na Europa em 24 de janeiro. Os temas que dominaram o período incluíam o próprio vírus e o contexto global da pandemia, que foram apresentados inclusive através de informações erradas e mitos, sobretudo sobre as origens do vírus. Em março, mensagens sobre remédios prevaleceram e histórias acerca de mortes por calor e o desenvolvimento de vacinas aumentaram ao longo do tempo. Os usuários da rede social optaram por não partilharem conteúdos de fontes de saúde como a Organização Mundial da Saúde o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (Singh et al., 2020).

Em outra pesquisa, realizada em fevereiro de 2020, os resultados mostraram que conteúdos desinformativos são mais publicados do que os que apresentam factos com provas científicas. Porém, não possuem tanto envolvimento – a contabilizar os retweets, gostos e comentários - quanto os conteúdos baseados na ciência (Pulido et al., 2020). De qualquer forma, uma investigação preliminar indica que a desinformação no Twitter durante o contexto de epidemia do coronavírus foi ainda menos difundida que durante os surtos dos vírus Ébola e Zika (Prabhakar Kaila & Prasad, 2020). Essas ações e reações nas redes, no caso norte-americano, demonstram que as pessoas partilham falsas informações sobre a covid-19 simplesmente por não fazerem juízo crítico das mensagens (Pennycook et al., 2020).

Na Indonésia, o quadro é semelhante. As pessoas acreditavam que a covid-19 poderia ser interrompida por conta do clima quente do país. Houve quem citasse que a doença era uma arma biológica propositalmente criada e afirmaram crer que a água salgada e o vinagre poderiam matar o vírus (Nasir et al., 2020).

Um levantamento preliminar, realizado entre março e abril de 2020, também identificou curas e remédios como o tema mais recorrente na desinformação da pandemia em Alemanha e Reino Unido e o segundo mais frequente em Itália, Espanha e França (Covid Report, 2020). Contudo, conteúdos enganosos sobre o que os autores definem como “questões políticas” aparecem com frequência similar, sendo a maioria em Itália, Espanha e França e o segundo mais presente em Alemanha e Reino Unido. O relatório sugere que a imposição de intervenções de saúde pública em grande escala que acompanhou o avanço inicial da pandemia precipitou informações falsas sobre leis nacionais específicas ou alegadas ações ou mensagens atribuídas a políticos ou autoridades em geral (Covid Report, 2020, p. 10).

Temas como vacina, máscaras e outros equipamentos de proteção, formas de prevenção e contágio, além das alegações de que o vírus foi criado em laboratório também estiveram bastante presentes no contexto europeu (Covid Report, 2020, pp. 5-7), com destaque para teorias que envolvem Bill Gattes (p. 13) e alegações de que as redes de internet 5G eram transmissoras do coronavírus (p. 15), em conexão com a expansão da tecnologia chinesa no setor – reflexo bastante particular e recente da questão político-económica entre Estados Unidos e Reino Unido.

No caso brasileiro, o uso político da desinformação é encarado como diretamente relacionado à pandemia de covid-19 (Ricard & Medeiros, 2020). No Twitter, o período de março de 2020 foi marcado pelo alinhamento das narrativas enganosas com os discursos políticos em apoio ao presidente da República Jair Bolsonaro. O trabalho de Recuero e Soares (2020) também indica um crescimento da circulação de desinformação conforme o presidente fazia pronunciamentos.

3. O caso do Brasil

O quadro de polarização política e radicalização do debate público no Brasil é um processo que começou a se desenvolver de forma acelerada anteriormente à pandemia de covid-19 (Borges & Vidigal, 2018; Ortellado & Ribeiro, 2018). Sem deixar de reconhecer o papel significativo de outros atores e acontecimentos, foi sobretudo a partir da exploração e da capitalização desta polarização que Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República (“Retrato de”, 2018). Os posicionamentos de Bolsonaro permitem defini-lo como um populista autoritário de extrema-direita (Laclau, 2005; Hameleers et al., 2017; Norris & Inglehart, 2019), cuja ascensão não pode ser dissociada de um fenómeno mais amplo e de uma vaga global registada a partir da eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos.

Na presidência, Bolsonaro é responsável por aprofundar a polarização e a radicalização do debate público, numa gestão marcada por ataques às instituições democráticas, uso de desinformação e escalada do discurso agressivo que caracterizou a sua campanha eleitoral, voltando-se para os apoiadores mais radicais (Hunter & Power, 2019). O governo, nos primeiros meses de 2019, começou a protagonizar atritos com o Parlamento (Câmara dos Deputados e Senado) e com a Suprema Corte (Supremo Tribunal Federal) do país, que se aprofundou no ano de 20201. Bolsonaro, familiares, ministros e aliados próximos passaram a ser alvo de investigações sob suspeita de cometimento de crimes, o que veio a ampliar a instabilidade na governação e nas relações da própria sociedade (Sandes & Arreguy, 2020).

É neste contexto de um país dividido, radicalizado e sob um governo instável e de tendências autoritárias que a pandemia de coronavírus chegou ao Brasil. Simultaneamente influenciado por dinâmicas globais e permeado por aspetos únicos nos campos político, sanitário e comunicacional, bem como por consequentes interconexões destas áreas, a esfera pública brasileira apresenta-se como de considerável relevância para a aplicação do estudo que aqui propomos.

Para a melhor compreensão dos padrões analisados nesta investigação, oferecemos um panorama de fatos importantes da pandemia no Brasil durante a etapa de análise deste estudo, que compreende os meses de janeiro a maio de 2020. Neste período, Bolsonaro minimizou por diversas vezes a gravidade da situação sanitária e contrariou especialistas e a Organização Mundial da Saúde, atuando contra medidas de isolamento social e pela defesa de cariz milagroso de tratamentos não comprovados, como os medicamentos cloroquina e hidroxicloroquina. Este posicionamento é verificado em diferentes ocasiões (Arcanjo, 2020), por declarações (Sandes, 2020), condutas e medidas de governo (Uribe & Rodrigues, 2020; Machado, 2020).

O discurso do presidente sobre a pandemia sugere alinhamento com os anseios de sua base mais radical. Kalil (2018) e Nemer (2019) identificaram, entre outras características, latentes posicionamentos antimedia e anticiência no bolsonarismo. Essa polarização política também encontrou eco quando o presidente entrou em rota de colisão com prefeitos e governadores, que, na sua maioria, optaram por medidas localizadas de isolamento social. Neste sentido, o presidente força a saída de dois ministros da Saúde, um em 16 de abril e outro em 15 de maio. Ambos médicos, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich saíram por discordar, em particular, de duas exigências de Bolsonaro: que o ministério da Saúde liberasse e incentivasse a utilização da cloroquina a partir dos primeiros sintomas de contaminação do coronavírus e também que viessem a desaconselhar, e até impedir ativamente, medidas de isolamento social generalizado, contrariando protocolos majoritários entre autoridades de saúde de todo o mundo (Chaib & Uribe, 2020; “Após ultimato”, 2020). Desde então e até o final do período de nossa análise, o país enfrentou a pandemia com um ministro interino. General do Exército, Eduardo Pazuello não tem formação em medicina nem possui experiência na área de saúde pública. As sucessivas trocas de comando da pasta ocorreram em momento de elevado número de novos casos confirmados de infecção por coronavírus e de mortes decorrentes da covid-19. Importa notar que as autoridades brasileiras registaram como o primeiro caso oficial um diagnóstico de 25 de fevereiro, embora especialistas apontem que possam ter ocorrido infecções anteriores e que seja possível que o real primeiro paciente do país nunca seja encontrado (Lemos, 2020).

Outros factos relativos à retórica e à atuação do bolsonarismo tendem a disputar o espaço na produção de desinformação, bem como os conteúdos relativos à pandemia também acabam por incorporar algumas dessas narrativas. Pesquisadores argumentam que temas políticos predominam entre conteúdos de desinformação (Wardle & Derakhshan, 2018; Ferreira, 2019). Os cinco meses de análise projetam e retratam um Brasil que atravessa uma fase marcada pela disputa de narrativas, pela própria natureza polarizada de sua esfera pública política, e inclusive pela própria natureza do populismo autoritário de extrema-direita em ascensão no país, com sua lógica de atribuição de culpa e ataque a opositores.

4. Metodologia

A investigação tem por objetivo compreender o fluxo de desinformação no contexto da pandemia de covid-19 e como os assuntos que dominaram este cenário, nomeadamente saúde e política, foram articulados. A análise é desenvolvida a partir de uma abordagem quantitativa, em publicações que circularam em redes sociais entre janeiro e maio de 2020 no Brasil. O corpus é formado a partir dos relatórios de checagem da agência de fact-checking Aos Fatos, com recurso a análise documental, o que nos permite aceder conteúdos de desinformação de elevada visualização e relevância previamente armazenados (Bowem, 2009; Ferreira, 2019, pp. 82-86). A seleção dos conteúdos pelas agências segue critérios como a relevância, o alcance e a repercussão da desinformação nas múltiplas plataformas de redes sociais. As publicações são detetadas através da monitorização sistemática do Facebook, Instagram, WhatsApp e Twitter. Desta forma, o corpus está condicionado à verificação das peças pela agência de fact-checking e representa uma parte dos conteúdos que circulam nas redes sociais.

A análise de conteúdo é orientada pelas perguntas de investigação:

  • Q1: Quando o assunto “coronavírus” foi incorporado no contexto de desinformação no Brasil?
  • Q2: Quais foram os temas evidenciados nos conteúdos desinformativos sobre “coronavírus”?
  • Q3: Quais foram os formatos e âmbitos privilegiados pelas histórias sobre “coronavírus”?
  • Q4: Quais foram as/os protagonistas das histórias sobre “coronavírus”?

Para alcançar os propósitos da pesquisa, a análise foi conduzida, primeiramente, de maneira a verificar quantos conteúdos desinformativos sobre a pandemia constituem o corpus total (N=197). O conteúdo manifesto de cada peça desinformativa foi analisado de forma a identificar e separar as que continham narrativas relacionadas à pandemia. Com a identificação dos fact-checkings sobre coronavírus (N=116, 58,8%), a matriz de categorização foi construída a partir dos dados, por método indutivo-dedutivo (Elo e Kyngas, 2018; Mayring, 2000). No estágio inicial, o desenvolvimento de categorias e variáveis de análise também considerou modelos adotados em estudos preliminares deste campo (Brennen et al., 2020; Covid Report, 2020). Os conteúdos originais de cada relatório da agência de checagem foram priorizados na categorização e cada conteúdo foi codificado em seis variáveis: “Tema”, “Âmbito”, “Formato”, “Referência a ator social”, “Imagem de ator social” e “Referência a risco”. A descrição no relatório serviu de forma complementar à análise.

Quanto ao “tema” foram codificados: “Número de casos e morte”, “Tratamentos e prevenção”, “Isolamento social”, “Ações de governo”, “Origem do vírus” e “Outros”. Tendo em linha de conta as perguntas de investigação, desenvolvemos ainda um sistema de categorização para a análise mais detalhada dos temas “Tratamentos e prevenção” (subtemas mais recorrentes) e “Isolamento social” (referência manifesta contra e a favor das medidas), dada a presença mais recorrente na amostra e a sua relação com o foco de nosso estudo, como será detalhado na discussão de resultados. A variável “Âmbito” identifica o escopo geográfico, se nacional, local, mundial (quando a peça se refere à Organização Mundial da Saúde), internacional (quando a peça se refere a outros países que não o Brasil) e quando não há identificação na peça. Quanto ao “Formato”, foram considerados os apresentados pela agência de checagem. Importante pontuar que um fact-checking pode ser apresentado em mais de um formato; nestes casos foi categorizado o primeiro formato que aparece explicitamente no artigo. Eles foram codificados como texto, imagem (em que estão incluídos desenhos, artes gráficas, memes, outras montagens imagéticas e qualquer outro tipo de imagem estática), vídeo e áudio.

A “Referência a ator social” permitiu identificar se há presença de protagonista na peça e se há imagens respetivas. Porque os conteúdos desinformativos que circulam nas redes sociais fazem parte dos textos multimédia contemporâneos, faz-se necessário “formular as mesmas questões críticas em relação às representações quer verbais quer visuais” (van Leeuwen, 1997, p. 171). Consideramos atores sociais como protagonistas das histórias que figuram nas peças e que tenham relevância política e/ou credibilidade médica no país.

Por fim, avalia-se se há referência a políticas de saúde pública e se há referência a riscos a ser sinalizada como “Minimiza riscos”, “Eleva riscos” e “Não se aplica”. Sendo a perceção de risco intersubjetiva e passível de ser alterada conforme o tempo e o espaço (Lupton, 2006), é crucial pontuar que, de forma a minimizar as subjetividades, a categorização foi repetida por duas vezes, pelos dois pesquisadores, em julho de 2020, em Portugal.

5. Apresentação e discussão de resultados

O assunto “coronavírus” surge em janeiro no Brasil. A primeira referência de fact-checking é dada no dia 28, num conteúdo que põe em causa a origem natural do vírus. Embora a Organização Mundial da Saúde tenha sugerido estudos epidemiológicos para confirmar que o surto surgiu em Wuhan (Dantas, Baptista, & Carvalho, 2020), foi na China que os primeiros casos foram registados e informados, a partir de 31 de dezembro de 2019 (Cronologia, 2020). Uma das peças desinformativas indica que a CIA, agência de inteligência norte-americana, possui a patente de uma versão do vírus e que, portanto, o patógeno teria sido desenvolvido em laboratório. Neste mês, dos 30 conteúdos, 20% (N=6) são sobre o “coronavírus”.

Em fevereiro, os conteúdos desinformativos somam 18 peças, e destes apenas dois referenciam o “coronavírus”, tendo sido no dia 25 o primeiro caso de covid-19 confirmado no país. Em março, percebe-se que a pandemia começa a dominar o cenário de desinformação nas redes sociais. Dos 50 fact-checkings, 70% (N=35) falam sobre o “coronavírus”. Neste mês, em 11 de março, a Organização Mundial da Saúde decretou a situação como pandemia. No Brasil, a primeira morte foi anunciada em 16 de março.

Nos meses seguintes, é possível perceber que o assunto continua intensificado em comparação com outros tópicos (conforme vê-se no gráfico 1 como “soma de variados”). Em abril, o total de peças é de 52 e as que se referem ao “coronavírus” representam 76,9% (N=40). Em maio, é identificada a mesma proporção que em fevereiro (70%), tendo sido contabilizadas 47 peças no total e 33 sobre o “coronavírus”.

Gráfico 1: Desinformação e pandemia

No corpus selecionado com os conteúdos sobre “coronavírus” (N=116), e que compreende o período de cinco meses, de janeiro a maio de 2020, os temas de maior relevância são “Tratamentos e prevenção” (27%, N=31) e “Número de casos e mortes” (22%, N=26). Em seguida, surgem os temas “Isolamento social” (19%, N=22), “Ações de governo” (14%, N=16), “Origem do vírus” (9%, N=11), “Corrupção” (1%, N=1) e “Outros” (8%, N=9). Embora o tema “Corrupção” tenha sido incorporado na categorização por conta da ampla discussão no espaço mediático a respeito de escândalos dos governos, tanto nos âmbitos estaduais quanto nacional, este é um tópico que não é explorado em consonância com a abordagem mediática nas narrativas desinformativas estudadas. O tema é apresentado somente uma vez e no mês de maio.

Gráfico 2: Temas

Importa notar que as narrativas de desinformação predominantes no debate público estão à luz da postura, das declarações e dos atos do presidente Jair Bolsonaro. A posição de chefe de governo tende a ser exemplo para a população, dinâmica que é acentuada pela personalização da política (Lenz, 2013; Blondel & Thiébault, 2010; McAllister, 2007).  Esta dinâmica não só é acentuada em períodos de crise, onde o cidadão se volta para seus líderes em busca de orientação para seus atos, como também é potencialmente mais forte no Brasil, por seu sistema de governo tradicionalmente mais personalizado, e pela própria natureza do bolsonarismo e da situação corrente na arena política do país, como discutimos anteriormente.

Como mostraremos a seguir, dos três temas mais abordados, nos dois com maior relevância predominam a minimização do risco da pandemia. Em “Tratamentos e prevenção” são predominantes as narrativas sobre curas fáceis, que recomendam o uso de itens do quotidiano, como chá de boldo e vinagre, ou de remédios para outras doenças, todos sem eficácia comprovada para tratar a covid-19 ou prevenir a contaminação do coronavírus. Já em “Número de casos e mortes” quase que a totalidade dos conteúdos alegam a existência de fraudes que elevam a quantidade de óbitos pela doença, e expressam que a gravidade da pandemia seja falsa, inventada ou exagerada. Para exemplificar os conteúdos deste tema, destacam-se duas narrativas: a de que a morte de um borracheiro após a explosão de um pneu foi incluída nos dados oficiais de óbitos de covid-192 e a da existência de falsos enterros, realizados com caixões funerários contendo pedras com o intuito de inflar os dados3. Ambas as narrativas tiveram elevado engajamento no debate público, tendo a primeira surgido por diferentes formatos e autores, e a segunda, a partir de um vídeo gravado na primeira pessoa, cuja autora das alegações foi posteriormente indiciada pela polícia (Almeida, 2020).

De forma complementar, a terceira temática mais presente no período da análise, “Isolamento social”, tem como maioria as críticas às medidas de isolamento, quarentena e paralisação de atividades ou serviços, classificando-as como exagero e destacando o risco para a economia. Neste sentido, predomina na desinformação analisada o apoio ao posicionamento do presidente sobre a pandemia, que, como discutimos, constantemente minimiza o seu risco e defende a retomada das atividades.

A primeira referência no corpus analisado ao tratamento com cloroquina (N=9) é de 20 de março. Os conteúdos sobre cloroquina (inclui-se também hidroxicloroquina) representam 29% do tema “Tratamentos e prevenção” e o uso de máscaras aparecem em 13% (N=4). Os conteúdos contra a ação preventiva das máscaras minimizam a pandemia e pregam a volta ao normal. O próprio presidente insistiu por vezes em não usá-la e fez afirmações homofóbicas sobre sua utilização (Phillips, 2020).

Gráfico 3: Tema “Tratamentos e prevenção”

Em declarações públicas, Bolsonaro mencionou a cloroquina pela primeira vez no dia 21 de março, quando anunciou que o Exército brasileiro fabricaria o medicamento (Shinohara, 2020). É a partir desta data que o presidente brasileiro intensificou o discurso sobre uma possível eficácia da substância no combate à covid-19, que nunca foi comprovada por testes clínicos seguros. A sincronia com as falas do presidente dos Estados Unidos é notável: Bolsonaro falou pela primeira vez na cloroquina menos de 48 horas depois de Donald Trump ter falado pela primeira vez (Dale, 2020). O primeiro conteúdo falso do tema na amostra é registado no dia 20 de março, mês que concentra um total de três narrativas sobre cloroquina nos seus últimos dez dias. Em 30 de março, os posts do presidente sobre cloroquina e isolamento social foram excluídos pelas principais plataformas de redes sociais, que consideraram as informações como potenciais causadora de danos (Senra, 2020). O tema se mantém presente em abril, com 2 narrativas checadas, e aumenta para 4 em maio, acompanhando o discurso de Bolsonaro4.

O assunto “Número de casos e morte” é incorporado nas narrativas a partir de março, mês que houve o registo da primeira morte no país (Mariz, 2020). É no mês de março ainda que surgem outros temas nas peças, nomeadamente “Tratamentos e prevenção”, “Isolamento social”, “Ações de governo” e “Origem do vírus”, tornando os motes mais diversos do que os apresentados nos meses anteriores. Em janeiro e fevereiro as narrativas restringem-se sobre a “Origem do vírus” e “Tratamento e prevenção”.

Março é também o mês em que o tema “Isolamento social” (N=12) é o dominante, enquanto os meses subsequentes apresentam 7 conteúdos em abril e 8 conteúdos em maio. Como expresso no gráfico abaixo, prevalecem as peças que são contra o isolamento (N=16) e, por sua vez, o distanciamento físico, o lockdown e a quarentena. Há apenas uma peça que é favorável às medidas orientadas pela Organização Mundial da Saúde e 4 peças não manifestam referências.

Gráfico 4: Análise das narrativas sobre “Isolamento social”

Verifica-se também no tema “Isolamento social” a relação entre a conduta de Bolsonaro e as mensagens predominantes das narrativas. O presidente conduziu ataques ao isolamento social na mesma cronologia e proporção que a desinformação buscou criticá-las ou desacreditá-las. Além das emblemáticas declarações que discutimos, em que o presidente classificou a pandemia como “superdimencionada”, “histeria” ou “gripezinha”, ele passou a reforçar, particularmente a partir de março, mensagens que priorizavam a proteção da economia e que sugeriam que a sua abordagem da pandemia fosse enquadrada por um contexto de luta política (Arcanjo, 2020).

Importa notar ainda que o presidente, pessoalmente, deu sucessivas demonstrações públicas de descumprimento de isolamento, em compasso que sugere conexão com a desinformação sobre o tema. No período de nossa análise, Bolsonaro gerou, em média, uma aglomeração por dia, com passeios em comércios e caminhadas nas ruas, onde tocou, abraçou e posou para fotos (Sandes, 2020). Assim como os conteúdos críticos ao isolamento e à quarentena, a presença deliberada do presidente nas ruas e sua interação com apoiantes começou no final de março e ficou mais intensa em abril e maio. Numa das ocasiões, Bolsonaro afirmou “Ninguém vai tolher meu direito de ir e vir” (de Castro, 2020), argumentação que se relaciona com as narrativas falsas mais críticas do tema “Isolamento social”.

Por outro lado, embora tendesse a emular o comportamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Bolsonaro não o seguiu na narrativa do “vírus chinês”, tendo feito poucas referências ao país asiático, que é o maior comprador de commodities brasileiras. Ainda que alguns apoiadores e integrantes do governo tenham trazido o tema para o debate público (Fellet, 2020), há menor recorrência do assunto mediante os demais e é restrito ao início da pandemia, tendo a desinformação da amostra acompanhado esta dinâmica.

No corpus analisado, 11 peças citam a China, sendo 7 sobre a origem do vírus. Uma peça menciona que o país tenha se beneficiado economicamente da pandemia, enquanto outra atribuiu à China um plano de dominação socialista. As outras 2 falam de tratamento, uma dizendo que as máscaras chinesas estão infetadas e outra com um alerta da Organização Mundial da Saúde sobre este facto.

Em relação à “Referência a risco”, os dados da amostra mostram que 45% (N= 55) das narrativas minimizam os riscos da pandemia, enquanto 13% (N= 16) potencializam os riscos e em 42% (N=51) não é manifesta referência a nenhuma ameaça. Embora nos casos onde o risco não esteja manifesto, os conteúdos não sugerem uma interpretação de neutralidade. Os conteúdos não devem ser interpretados em separado, porque fazem parte de uma construção de narrativa desinformativa. Este tipo de encadeamento de histórias tende a apresentar narrativas complexas e subtis ao mesclar dados falsos e verdadeiros, bem como aparecem com frequência em uma lógica ora de intenção ora de ataque, sem necessariamente mencionar diretamente seu alvo (Wardle & Derakhshan, 2017; Gelfert, 2018).

Quando os relatórios apontam para assuntos ligados aos tratamentos, os conteúdos que minimizam os riscos dão a falsa sensação de segurança, de saúde, de estar livre da doença. Ao dizerem que a situação epidémica é grave e que há uma solução fácil para resolvê-la, subestima-se, assim, um cenário de crise de saúde pública avançado por não haver nem profilaxia nem medicamentos com eficácia comprovada. Este fundamento é visto de forma recorrente na desinformação de saúde, como já referido acima nos casos da Zika e do Ébola (Ortiz-Martínez & Jiménez-Arcia, 2017; (Oyeyemi, Gabarron & Wynn, 2014). Conforme já referido, nossa análise demonstra que as alegações de que o número inflado de mortes desempenha um papel significativo ao complementar e reforçar este efeito no caso brasileiro.

Percebe-se a predominância da temática envolvendo o âmbito nacional (N=40, 34%) e relevância das peças de âmbito local (N=28, 24%). menor identificação do assunto envolvendo os âmbitos mundial (N=7, 6%) e internacional (N=18, 16%). Os países mais citados são China (N=11), Estados Unidos (N=4) e Israel (N=3). As peças em que não há uma identificação clara do âmbito representam 20% (N=23) do corpus.

Gráfico 5: Âmbitos dos conteúdos desinformativos

Nas peças analisadas prevalecem os formatos de imagem (N=68, 59%) e de vídeo (N=28, 24%). As de texto representam 15% (N=18). Não houve referência a conteúdo noticioso em áudio. A agência não identificou o formato em duas peças. Como referem Wardle e Derakhshan (2017, pp. 38-40), determinados formatos podem ajudar a captar mais atenção da audiência ou, no caso específico dos conteúdos falsos, a tornar as narrativas mais credíveis para os leitores. Formatos baseados em imagens avocam particular potencial de atração e aceitação (Renner, 2017).

Os resultados indicam que os produtores dos conteúdos buscam um conteúdo mais fluido, capaz de viajar com facilidade por várias plataformas. Por outro lado, assumimos que as postagens de uma foto com texto avocam também uma aparência mais pessoal, ou mesmo familiar, em comparação com links de um site externo. É uma aparência que ajuda a convencer o leitor da sua credibilidade, nomeadamente, em ambiente anti-media e de crise de confiabilidade (Renner, 2017; Wardle & Derakhshan, 2017, pp. 38- 40). Este fenômeno não pode ser desligado das conclusões de Renner (2017), de que as “imagens têm maior poder de atingir leitores do que artigos, sejam elas falsas, reais, partidárias ou não”. Com efeito, de acordo com projetos de combate à desinformação nas eleições francesas e britânicas de 2017, “os conteúdos visuais foram esmagadoramente os mais compartilhados e os mais difíceis de desmascarar enquanto conteúdo enganoso” (Wardle & Derakhshan, 2017, p. 39). Por consequência e recorrendo aos mesmos conceitos, consideramos que os produtores de desinformação usaram mais conteúdos com fotos ou com vídeos por terem menor capacidade de prender a atenção dos usuários, particularmente num ambiente digital online. Isto explicaria a baixa incidência dos formatos não imagéticos como texto, áudio e infográficos/documentos (essencialmente informações escritas em arquivos de imagem).

Gráfico 6: Formato dos conteúdos desinformativos

Do corpus analisado, 41 peças referem atores sociais, o que corresponde a 35%. Destas, há em 32 a presença de imagens. Ainda que cada narrativa represente um conjunto de conteúdos enganosos sobre o mesmo tema, 20 atores sociais figuram em apenas uma narrativa, o que indica uma ação ampla e variada na produção de desinformação. No entanto, a dinâmica dos conflitos entre o presidente Jair Bolsonaro e os governadores estaduais, bem como com autoridades de saúde pública nacionais e internacionais, se verifica mais uma vez refletida nos resultados da análise. Um dos principais antagonistas da conduta do presidente no início da pandemia, o governador de São Paulo, João Doria, é o mais citado, (N=5). O então ministro da Saúde brasileiro, Luiz Henrique Mandetta, o diretor da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, e Bolsonaro, aparecem cada um em quatro narrativas. No total, seis governadores aparecem em pelo menos uma peça.

6. Conclusão

Os resultados demonstram que a desinformação5 sobre a pandemia cresce progressivamente ao longo dos meses analisados. Contudo, há significativas alterações nos enquadramentos do tema, que gradativamente passam a refletir a disputa política que se formou no Brasil em torno da crise do coronavírus. Dominantes no início, os preconceitos com o povo chinês e as indicações de tratamentos milagrosos são superados pela defesa do uso da cloroquina, pelas críticas ao isolamento social e pelas acusações de sobredimensão fraudulenta dos óbitos. As narrativas predominantes, de alguma forma, suportam ou amplificam, discursos e condutas do presidente Jair Bolsonaro.

Com baixo registo em janeiro e fevereiro, a desinformação sobre a pandemia é incorporada de forma significativa no Brasil em março, quando se verifica uma sobreprodução que supera narrativas de outros temas, proporção que se mantém nos meses seguintes do período analisado. A cronologia de crescimento da desinformação sobre a pandemia acompanha o registo do primeiro caso oficial em 25 de fevereiro, bem como aumento sucessivo subsequente, a maior presença do tema no debate público, cobertura dos media e nas declarações de atores sociais de relevo no país.

A análise demonstra que os temas mais recorrentes da desinformação sobre a covid-19 no Brasil foram “Tratamentos e prevenção” e “Número de casos e mortes”, onde prevaleceu uma maioria significativa de conteúdos com referências manifestas à minimização do risco da pandemia. Conteúdos enganosos sobre “Isolamento social” consistem no terceiro tema mais abordado, com uma sobredimensão de manifestações contrárias às medidas. A minimização do risco, a promessa de curas fáceis, em particular a cloroquina, e campanha contra o isolamento se complementam no contexto desinformacional. A análise mais detalhada das narrativas e do seu fluxo de publicação à luz do contexto local e da verificação das intervenções de relevo no debate público sugerem relação entre os conteúdos enganosos às declarações e posturas dos atores sociais, notadamente o presidente Jair Bolsonaro.

Quanto aos formatos, os resultados são consistentes com outros estudos do tema, evidenciando uma ampla maioria de imagens, que tem maior poder de atração na internet e também tendem a conferir credibilidade. Percebe-se a predominância de narrativas de âmbito nacional e local, o que reforça, a partir do que é espelhado na desinformação sobre o tema, a avaliação de que a pandemia tende a ser tragada pelas dinâmicas e narrativas específicas do debate brasileiro.

Parte expressiva dos conteúdos tem atores sociais e as narrativas também tendem a refletir a dinâmica dos conflitos entre o presidente Jair Bolsonaro e adversários políticos e autoridades de saúde, que lideram em recorrência na amostra.

A análise sugere que, no Brasil, a própria pandemia foi enquadrada no contexto da disputa política local, bem como pela polarização e toxidade que têm caracterizado o debate público no país, o que ficou refletido nas narrativas de desinformação sobre a covid-19. A desinformação sobre a pandemia atuou em compasso com vozes e agendas específicas, em semelhança com o demonstrado por outros estudos no período eleitoral de 2018 e em pontos de inflexão da atual governação brasileira. Este processo pode ter agravado, no país, os efeitos da maior crise sanitária de nossa geração, influenciando medidas de resposta, e não de somenos importância, as reações da população.

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1 O Brasil adota um sistema presidencialista, caracterizado por uma maior concentração de poder e das atribuições executivas no presidente. Contudo, o partido de um presidente não tem, necessariamente, a maioria no Parlamento, o que é o caso de Bolsonaro. Embora tenha razoável autonomia para implantar algumas ações de governo, o presidente depende dos deputados não apenas para aprovar leis de seu interesse, mas parte das medidas administrativas e, principalmente, o orçamento. É também desta configuração que surge parte dos atritos entre Poderes da gestão Bolsonaro. O Parlamento ora funciona como trava aos excessos, ora chama para si a responsabilidade de atuar onde o governo, segundo seu entendimento, não atua corretamente. O Legislativo também tem tomado cada vez mais controle das decisões orçamentárias do governo federal na última década.

4 Importa perceber que, embora seja significativa e crescente a desinformação sobre cloroquina já no período analisado, análise exploratória do período subsequente realizada para estudo de continuidade indica crescimento mais acentuado a partir do diagnóstico positivo para Covid-19 de Bolsonaro, que passa a dar testemunho pessoal em favor da substância (ver Teodoro, 2020).

5 Recorde-se que este estudo adota a definição de desinformação como conteúdo enganoso e disseminado intencionalmente, que pode ser constituído por narrativas inteiramente fabricadas ou pela combinação de dados falsos e verdadeiros em diferentes nuances.

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