Monografico_Cobertura_ambiental_durante_a_pandemia_no_Brasil_e_em_Portugal

Cobertura ambiental durante a pandemia no Brasil e em Portugal: explorando crises e (des)conexões

Environmental coverage during a pandemic in Brazil and in Portugal: exploring crises and (dis) connections

Cobertura ambiental durante la pandemia en Brasil y Portugal: explorando crisis y (des) conexiones

Eloisa Beling Loose

Universidade Federal do Rio Grande do Sul / eloisa.beling@gmail.com

Alice Dutra Balbé

Universidade do Minho / alicedb.jornal@gmail.com

Chasqui. Revista Latinoamericana de Comunicación

N.º 144, Abril-Julio 2020 (Sección Monográfico, pp. 45-66)

ISSN 1390-1079 / e-ISSN 1390-924X

Ecuador: CIESPAL

Recibido: 09-08-2020 / Aprobado: 14-10-2020

Resumo

Este artigo detém-se sobre a cobertura jornalística das questões ambientais durante a pandemia de covid-19 a fim de verificar como diferentes crises, relacionadas, são apresentadas ao público. A proposta compara de que forma dois sites de notícias considerados de referência do Brasil e de Portugal, o G1 e o SIC Notícias, têm trabalhado as problemáticas ambientais durante a pandemia e se há cruzamento das pautas climática com a disseminação do coronavírus. Realizamos uma coleta a partir da combinação de palavras-chave nos dois veículos, entre março e junho de 2020, e analisamos a partir da Análise de Conteúdo (Bardin, 2007), por meio de categorizações temáticas, quais são as crises que são evidenciadas em cada um dos países, assim como os enfoques mais recorrentes em cada um deles. Dentre os resultados, destacamos a compartimentalização das crises e um enquadramento mais global nas notícias em Portugal, diferente do foco nacional identificado no Brasil decorrente do aumento das queimadas e desmatamento. Também verificamos que o entrelaçamento das crises climática e sanitária, procurado ao longo da análise, revelou-se bastante superficial, sendo a desconexão mais perceptível que o contrário.

Palavras-chave: jornalismo; cobertura ambiental; crise sanitária; crise climática

Abstract

This article focuses on journalistic coverage of environmental issues during the covid-19 pandemic to see how different related crises are presented to the public. The proposal compares how two news sites considered to be a reference in Brazil and Portugal, G1 and SIC Notícias, have been working on environmental issues during the pandemic and whether there is a crossing of the climate agenda spread of the coronavirus. We carried out a collection from the combination of keywords in the two sites, between March and June 2020, and analysed them from the Content Analysis (Bardin, 2007), which are the crises that are evident in each of the countries, through thematic categorizations, as well as the most recurrent approaches in each of them. Among the results, we highlight the compartmentalization of crises and a more global framework for news in Portugal, different from Brazil’s national focus due to the increase in fires and deforestation. We also found that the intertwining of the climatic and sanitary crises, sought throughout the analysis, proved to be quite superficial, with the disconnection being more noticeable than the opposite.

Keywords: journalism; environmental coverage; health crisis; climate crisis.

Resumen

Este artículo se centra en la cobertura periodística de los problemas ambientales durante la pandemia del covid-19 para ver cómo se presentan al público las diferentes crisis relacionadas. La propuesta compara cómo dos sitios de noticias considerados de referencia en Brasil y Portugal, G1 y SIC Notícias, han estado trabajando en temas ambientales durante la pandemia y si hay un cruce de pautas climáticas con la propagación del coronavirus. Realizamos una búsqueda basada en la combinación de palabras clave en los dos vehículos, entre marzo y junio de 2020. Analizamos, desde el Análisis de Contenido (Bardin, 2007), a través de categorizaciones temáticas, cuáles son las crisis que son evidentes en cada uno de los países, así como los enfoques más recurrentes en cada uno de ellos. Entre los resultados, destacamos la compartimentación de las crisis y un marco más global de noticias en Portugal, diferente al enfoque nacio-nal identificado en Brasil por el aumento de incendios y deforestación. También encon-tramos que el entrelazamiento de las crisis climática y sanitaria, buscado a lo largo del análisis, resultó ser bastante superficial, siendo más notoria la desconexión que al contrario

Palabras clave: periodismo; cobertura ambiental; crisis de salud; crisis climática

1. Introdução

Em todo mundo, mesmo que em períodos ligeiramente diferentes, desde que a pandemia de coronavírus foi identificada muitas questões até então consideradas “normais” precisaram ser revistas. Hábitos comuns tiveram que ser adequados à necessidade de distanciamento social, uso de máscaras e frequente higienização das mãos, das superfícies e de tudo mais que pudesse favorecer a disseminação do vírus. E tal mudança não deixou a lógica da produção jornalística ilesa: a urgência de se comunicar os impactos e formas de proteção da covid-19 fez com que os jornalistas se focassem nesse acontecimento de envergadura global e de alta responsabilidade coletiva.

Esta análise, de caráter comparativo e calcada na Análise de Conteúdo (Bardin, 2007), se detém na cobertura ambiental e na discussão das crises que ganharam visibilidade em dois sites de notícias, considerados de referência, neste período de pandemia. Voltamo-nos, sobretudo, para o espaço dedicado à crise climática. Apesar do forte paralelo que se possa traçar entre a emergência climática, também com efeitos catastróficos e de alcance global, onde as populações mais vulneráveis são as mais afetadas, essa construção discursiva nem sempre é abordada pelos jornalistas. Diante da factualidade de um problema que mata milhares de pessoas a cada dia, a questão climática, com consequências menos perceptíveis pelas pessoas, perde espaço (como muitas outras pautas). Contudo, há autores que acreditam que a situação da pandemia pode tornar mais real e urgente o enfrentamento de crises já conhecidas. Segundo Firpo Porto (2020, p.6), embora a emergência das mudanças climáticas já fosse projetada pelos cientistas e até experienciada de diferentes maneiras pelo mundo, o aparecimento da pandemia, pode “[...] despertar na busca de um novo paradigma sobre a responsabilidade humana no destino do planeta.”

Neste contexto também é preciso considerar que, diante da crise econômica, muitas redações tiveram redução de pessoal ou de horas de trabalho, além de que muitos dos jornalistas especializados em ciência, que mais teriam condições de tratar das conexões entre a crise sanitária e a crise climática, foram realocados para tratar da cobertura diária da pandemia. Entretanto, acreditamos que existiram algumas oportunidades para avançar com esse entrelaçamento, como o Dia do Meio Ambiente, e o aumento do desmatamento no Brasil.

A proposta deste trabalho é comparar a cobertura ambiental em dois sites de notícias ligados a grandes grupos de comunicação do Brasil e de Portugal, o G11 e o SIC Notícias2, assim como identificar se há conexão da crise sanitária com a climática (ou com outras crises). Segundo o Digital News Report 2020, do Reuters Institute, esses dois grupos de comunicação encabeçam o topo do alcance, inclusive estando entre os três primeiros lugares no que tange mídia online.

2. Crises entrelaçadas

A crise do coronavírus é apenas mais uma das que permeiam nossa contemporaneidade. Assim como Firpo Porto (2020), entendemos que a pandemia de covid-19 é parte de uma crise civilizatória mais ampla, que envolve múltiplas facetas. Aliás, é decorrente da relação fraturada com a natureza, na qual a humanidade se coloca como superior e percebe o progresso como inevitável. Morin e Kern (2003) falam que já vivenciamos um conjunto policrísico, no qual se sobrepõem uma série de problemas que, aparentemente, podem estar desconectados, mas têm fios de ligação, de interdependência.

Conforme Morin e Kern (2003), apesar da ideia de modernidade ainda permanecer atraente, a tríade ciência/técnica/indústria, que a sustenta, começa a ser posta em xeque. Há cada vez mais incertezas em relação ao presente e ao futuro, e indicações claras de que esse modelo é “[...] núcleo e motor da agonia planetária” (p.88). As crises que nos cercam são, em boa parte, derivadas da nossa forma de pensar, ser e agir frente à natureza, que compartimentaliza e fragmenta os processos e aparta o homem da natureza.

Logo, a fim de reconciliar a humanidade com o valor da vida, de modo amplo, é preciso abandonar a racionalidade econômica, a perspectiva antropocêntrica que vê a natureza somente como recurso a ser explorado, assim como a visão reducionista e a noção hegemônica e limitada de desenvolvimento.

A noção de desenvolvimento deve tornar-se multidimensional, ultrapassar ou romper os esquemas não apenas econômicos, mas também civilizacionais e culturais ocidentais que pretendem fixar seu sentido e suas normas. Deve romper com a concepção do progresso como certeza histórica para fazer dele uma possibilidade incerta, e deve compreender que nenhum desenvolvimento é adquirido para sempre: como todas as coisas vivas e humanas, ele sofre o ataque do princípio de degradação e precisa incessantemente ser regenerado. (Morin & Kern, 2003, p.102)

A frágil concepção de desenvolvimento que se tornou hegemônica baseia-se principalmente no crescimento econômico, em uma perspectiva sem limites, deixando de lado inúmeros aspectos do bem-estar humano e ignorando o fato de que esse caminho é insustentável, afinal, já sabemos que os recursos são finitos. Dessa maneira, a emergência de uma crise, como a do coronavírus, só tende a agravar e ampliar outras, que estavam latentes ou pouco visíveis. Firpo Porto (2020), a partir das lentes da saúde coletiva, ecologia política e dos estudos pós-coloniais, defende que a crise atual, da pandemia, sublinha os problemas da modernidade ocidental, capitalista e colonial.

A modernidade, vista como etapa derradeira de progresso e evolução, tem invisibilizado práticas cotidianas de violência e opressão, ofuscando outras possibilidades emancipatórias de transformação. Nesse sentido, a pandemia reforça e intensifica injustiças sociais, sanitárias e ambientais pré-existentes, tornando mais evidentes ideologias e manipulações que escondem certos interesses. (Firpo Porto, 2020, p.4)

As origens da pandemia de covid-19, embora ainda sejam incertas, indicam ter ligações com o nosso modelo agroalimentar que elimina a biodiversidade e promove ampla degradação ambiental. Rizzini Freitas (2020) afirma que surtos epidêmicos – que podem se tornar pandemias – relacionam-se com perda de habitat naturais e o encolhimento da diversidade biológica, assim como com o desmatamento e a caça, e o manejo inadequado de animais silvestres.

A urgência, a escala e a gravidade dos efeitos da pandemia, sentidos em diferentes esferas, possuem semelhanças com a crise climática, que exigem ações imediatas, têm alcance global e consequências nos mais diferentes setores. Embora as duas crises possam parecer democráticas, são sempre as populações mais vulneráveis as que sofrem mais com os efeitos de qualquer crise. Segundo o relatório da Oxfam “Dignidade, não Indigência” (2020), a pandemia de coronavírus aumentará a probreza e aprofundará a desigualdade social, criando ainda mais barreiras para o enfrentamento dos riscos climáticos.

No Brasil, a crise institucional e a política foram intensificadas pela falta de ações certeiras que evitassem o colapso do sistema de saúde e, consequentemente, o aumento do número de vítimas fatais. O falso dilema entre preservar vidas ou a economia foi encabeçado pelo governo federal em uma tentativa, sem respaldo científico, de voltar rapidamente à suposta normalidade, enfraquecendo a recomendação de isolamento social e ampliando a disseminação do vírus, sobretudo entre aqueles mais vulneráveis. Santos de Jesus et al. (2020) analisaram as medidas tomadas pelo governo brasileiro diante da crise sanitária e pontuaram como o enfraquecimento de políticas públicas na área de saúde, fruto do fortalecimento do neoliberalismo, que foi crescente nas últimas décadas, trouxe (e traz) consequências drásticas para 80% da população que depende do Sistema Único de Saúde (SUS).

Diante de um governo federal que minimizou os impactos da pandemia, comparando-a com uma “gripezinha”, coube aos governos subnacionais lidar com planos de distanciamento social e ditar políticas públicas que pudessem reduzir os efeitos negativos da covid-19. Entretanto, tal cenário fez com que diferentes orientações circulassem, dificultando uma ação efetiva em termos de nação. Discursos nacionais e subnacionais se contrapõem, gerando interpretações diversas da gravidade, urgência e formas de enfrentamento da pandemia no Brasil. A falta de uma coordenação entre os diferentes entes e agentes brasileiros causaram problemas, “[...] em diferentes dimensões (federativa, republicana, democrática e internacional), [e] contribuíram para um ciclo vicioso de insegurança, descrédito das ações de controle da pandemia e ampliação do número de infectados” (Scarpeline de Castro, 2020, pp.129-130).

Outra questão importante, que foi escancarada com a crise sanitária, é a desigualdade presente na sociedade brasileira. Em muitos casos falta acesso à saneamento básico, as habitações são precárias e é difícil evitar aglomerações. Não há como a população ficar em casa se não há renda que permita o custeio das despesas essenciais como água, energia e alimentação. Sant’Anna e Young (2020) recordam que o grau de exposição ao risco de contágio depende muito do que cada um tem a ganhar ou perder, o que está associado à percepção do risco.

Por estarem expostos a um nível muito maior de risco, como violência, moradias em áreas inapropriadas, outros riscos sanitários, etc., indivíduos de comunidades pobres acabam aceitando submeter-se à possibilidade de contaminação por valores que despertam espanto nas elites. As filas nos transportes públicos e na busca de auxílio, a continuidade das atividades de autônomos em mercados populares e outras formas de aglomeração em bairros periféricos não são atitudes estritamente voluntárias ou irracionais, mas o efeito perverso de uma sociedade profundamente injusta em que os “abandonados à margem do caminho” manifestam sua impotência diante dos numerosos dilemas de sua sobrevivência. (Sant’anna & Young, 2020, p.163)

Em Portugal, o cenário é bem diferente, assim como também foram as medidas de controle à pandemia. No país europeu, a ameaça do vírus é agravada devido ao alto índice da população idosa. Conforme o relatório da Eurostat (Ageing Europe, 2019), Portugal é o terceiro país mais envelhecido da União Europeia (UE); proporcionalmente há 153 idosos para cada 100 jovens no país, atrás apenas da Itália e Alemanha. Por outro lado, é o terceiro país com mais médicos por 100 mil habitantes da UE - o cálculo inclui médicos inativos e aposentados.

O primeiro caso de coronavírus no Brasil foi registrado pela Organização Mundial de Saúde (WHO, na sigla em inglês) em 26 de fevereiro de 2020 e a primeira vítima mortal no dia 18 de março. Em Portugal, os dois primeiros casos positivos foram confirmados no dia 2 de março de 2020. No dia 12 do mesmo mês foi declarado o fechamento de todos os estabelecimentos de ensino e serviços não-essenciais, antes mesmo da primeira morte, registrada em 17 de março (WHO, 2020). Através do decreto presidencial (n.º 14-A/2020), de 18 de março, foi declarado estado de emergência promovendo o lockdown. A medida ficou em vigor até dia 2 de maio, quando foi declarada situação de calamidade. No texto é possível ler as razões para a medida:

É prioridade do Governo prevenir a doença, conter a pandemia, salvar vidas e assegurar que as cadeias de abastecimento fundamentais de bens e serviços essenciais continuam a ser asseguradas. Com efeito, urge adotar as medidas que são essenciais, adequadas e necessárias para, proporcionalmente, restringir determinados direitos para salvar o bem maior que é a saúde pública e a vida de todos os portugueses. (DRE, Decreto n.º 2-A/2020 - Diário da República n.º 57/2020, p.1)

O governo português adotou a posição preventiva devido a grande parte da população do país pertencer a grupos de risco, o que aumenta a chance de internação e óbito, e ao baixo número de leitos disponíveis para os cuidados intensivos. Estudo realizado pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), da Universidade Nova de Lisboa, identificou que o número de óbitos foi inferior ao esperado devido às restrições de mobilidade impostas pelo governo, o que evitou o colapso do sistema de saúde público (Vieira, Ricoca, Aguiar & Abrantes, 2020).

É preciso considerar as diferenças entre os países, não só em dimensão territorial e populacional, mas em termos de bem-estar social. Em termos gerais, até dia 30 de junho de 2020, em Portugal foram registrados 408 casos por 100 mil habitantes e no Brasil, 625 casos por 100 mil habitantes. O Brasil está em 79ª posição e Portugal em 40ª no ranking de 189 países classificados no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH, 2019), organizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Na América do Sul, o IDH do Brasil fica atrás do Chile, Argentina e Uruguai, ocupando a quarta posição. Também, neste caso, as diferenças das autoridades governamentais em relação à crise foram marcantes (ao menos no começo, já que a pandemia persiste no momento da escrita deste texto).

3. Desafios da cobertura jornalística durante a pandemia

Quando a covid-19 começou a afetar o território nacional, a produção jornalística, tanto em Portugal quanto no Brasil, passou a priorizar os casos, medidas de prevenção e recomendações do pessoal de saúde. Os critérios de noticiabilidade (Traquina, 2005) relacionados à novidade e ao risco de doença e até morte também atraíram o público, curioso em saber as origens da pandemia e seus efeitos, assim como preocupado como melhor se proteger do contágio. No começo, seja pela dimensão global, seja pelo grande impacto que produz na vida das pessoas, a pandemia se mostra um acontecimento de alta atratividade jornalística.

Com o passar do tempo, porém, mesmo que continue sendo factual e urgente, o assunto perde interesse, há uma saturação da atenção do público – o programa televisivo “Combate ao coronavírus3”, exibido nas manhãs da Rede Globo e apresentado pelo jornalista Márcio Gomes, é um exemplo disso, tendo sido criado em 17 de março como uma resposta à demanda por informações de saúde e sendo interrompido no dia 22 de maio, provavelmente por conta da saturação dos telespectadores e redução da audiência (em março o programa tinha 12 pontos e em abril já caiu para oito). Além das notícias parecerem sempre as mesmas (aumento do contágio, aumento do número de mortes, proximidade de colapso do sistema de saúde, necessidade de distanciamento social e uso de máscaras, perda de empregos, redução da renda, etc.), elas são sempre negativas – o que causa um desânimo, medo e, às vezes, negação ou apatia ao problema. Um dos grandes desafios da cobertura ambiental é que os próprios critérios de noticiabilidade conspiram para que a atenção seja cíclica em detrimento de uma atenção constante, especialmente pela falta de equilíbrio temático no espaço jornalístico (Sousa, 2008).

Barbosa Filho (2020) lembra que antes da crise havia uma tendência de baixa credibilidade da imprensa e até da ciência, mas que houve uma mudança de percepção, atribuindo ao jornalismo dos meios tradicionais maior credibilidade. Em Portugal, segundo a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC, 2020), foi identificado aumento no consumo de televisão e a audiência de sites nacionais de informação aumentou em 78% desde o início do ano. Pode-se verificar o papel fundamental que a imprensa realiza no que tange à prestação de serviço público, já que grande parte das medidas de enfrentamento e as posições de autoridades da saúde estão sendo conhecidas pelos públicos através da mídia – especialmente no Brasil, onde os agentes políticos não realizaram campanhas massivas de combate à pandemia.

Contudo, os trabalhadores da mídia também sofreram os impactos da desaceleração da economia. As redações tiveram que se adequar e houve redução de carga horária e demissões. De acordo com a Federação Nacional dos Jornalistas, há cortes de até 70% na remuneração de profissionais brasileiros. Um estudo realizado pela ERC (2020) revelou a perda de receitas entre 61 e 80%, especialmente para a mídia local (para 27% da imprensa local e regional e 44% das rádios locais).

Nesse contexto, de enxugamento das redações e foco na cobertura da pandemia, outros temas naturalmente perdem espaço e há deslocamento de jornalistas especializados em ambiente e clima para o acompanhamento dos acontecimentos que envolvem a pandemia, por familiaridade com a linguagem científica. No Brasil, por conta de problemas na divulgação dos dados pelo Ministério de Saúde4, criou-se um consórcio5 de veículos de imprensa para informar diariamente o avanço da doença, a partir da compilação de dados das secretarias estaduais de Saúde – retendo profissionais que poderiam cobrir outros aspectos ou assuntos caso houvesse transparência e agilidade por parte do governo.

Ao mesmo tempo que as notícias de mortes e número de contágios cresciam, surgiu uma abordagem sobre o “lado bom” do confinamento na mídia. Muhammad, Long & Salman (2020) realizaram uma análise dos números divulgados pela Agência Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA) e Agência Espacial Europeia (ESA) apontando a redução de cerca de 30% da poluição nos locais do epicentro da pandemia. Nessa abordagem, é considerado o fato como uma “bênção disfarçada” onde a natureza está se recuperando, ainda que o impacto possa ser temporário. Em busca de boas notícias, muitos veículos trouxeram os aspectos positivos do período de confinamento para o ambiente, mostrando como a água e o ar ficaram mais limpos, por exemplo.

Outra questão associada ao debate ambiental foi o entendimento de que não precisamos consumir tanto (afinal, em tempos de distanciamento apenas serviços essenciais, como mercados e farmácias, estavam autorizados a funcionar), assinalando para um caminho de mudança de comportamento, que seria mais sustentável. O fato de as pessoas estarem mais em casa também gerou mais envolvimento com a cozinha e a produção de alimentos, o que geralmente é mais saudável do que a alimentação rápida e processada vendida pronta. Entretanto, a comercialização via internet cresceu muito, colocando em dúvida se houve mesmo uma redução do consumismo ou apenas uma alteração na forma como se dá esse processo.

Apesar do contínuo esforço de sites, jornais, programas de rádio e TV em esmiuçar as estatísticas e tornar simples o jargão de pesquisadores, Barbosa Filho (2020) destaca que o tema nem sempre relaciona áreas e contextos. O que vivemos hoje devido a eclosão da pandemia de covid-19 não é um acontecimento isolado: o que percebemos é uma desconexão com o meio ambiente, com a carência de políticas públicas, com o silenciamento do que seria justiça social e de quem ganha o quê com a inação do Estado.

[...] a realidade dos conteúdos transmitidos, mostra que, apesar das emissoras de TV estarem fazendo uma cobertura completa sobre os dados e sobre os cuidados que o público deve ter com o Coronavírus, a questão de fundo, o atual sistema político econômico que tem causado todo este desastre social, não é devidamente exposto e assim, podemos enxergar os reais motivos que orientam os editores na cobertura das matérias sociais, e que podem equivocadamente serem percebidos como coincidentes com o pensamento de um jornalismo progressista e libertador. (Barbosa Filho, 2020, p.52)

Em sintonia, Bueno (2007) recorda que há muitos interesses e relações de poder envolvidos nas questões ambientais e que as soluções pontuais ou tecnológicas não conseguem avançar no debate, sendo respostas superficiais (e, portanto, insuficientes) aos efeitos do problema.

O erro está sempre em não perceber as conexões intricadas entre o meio ambiente, economia, cultura, política e sociedade, em reduzir por ingenuidade ou falta de conhecimento, a pauta a uma instância particular, simplista, num reducionismo que favorece os grandes interesses. (Bueno, 2007, pp.38-39)

Sousa (2008, p. 95) endossa que é preciso contexto sem ser prolixo, nem abrir mão do “duro da informação”. Também sublinha a necessidade da cobertura constante de epidemias cíclicas, como a de ebola e a de malária, que têm relação com desmatamento e a desertificação, relacionados com aquecimento global em Portugal e Espanha. Para o autor, cobrir com frequência tais fatos é responsabilidade dos meios jornalísticos.

Dessa forma, evidenciamos aqui as muitas articulações possíveis dentro do escopo da crise sanitária e, especialmente, os eixos comuns existentes entre essa e a crise climática ou ambiental – desde as origens e suas consequências até as ações mais efetivas para enfrentá-las.

4. Metodologia

As notícias que compõem o corpus desta análise foram coletadas a partir da busca por combinação de palavras-chave nas páginas dos sites de notícias, no período de quatro meses, nomeadamente de 1º de março a 30 de junho de 2020, no G1, do Grupo Globo (Brasil) e SIC Notícias, Canal Jornalístico da SIC (Portugal). As combinações utilizadas para selecionar as notícias de acordo com a temática de interesse foram: pandemia/covid/coronavírus + mudanças/alterações climáticas/ambiente/ambiental/clima. Excluíram-se textos de opinião e vídeos (reproduções de programas de TV).

O estudo do corpus é realizado por meio da Análise de Conteúdo (Bardin, 2007). Identificam-se as crises mais abordadas (por meio de categorização temática) e seus principais enfoques (subcategorias).

No total, foram coletadas 91 notícias com as combinações de palavras (39 em Portugal e 52 no Brasil). Ambos sites de notícias utilizam como fontes agências e outros parceiros. Nesse caso, o SIC, com frequência, publica conteúdo via Agência Lusa – Agência de Notícias de Portugal e o G1 das agências Reuters, France Press e da BBC News. As editorias tiveram maior variação no G1, que classifica as notícias por região, destacando-se as notícias da editoria “Natureza”; no SIC, a editoria “Coronavírus”, criada em fevereiro, foi a mais recorrente.

Dentre as notícias, observaram-se pautas sobre as datas marcantes e declarações de personalidades, ou seja, a relação factual da cobertura ambiental no período, esperada pela própria lógica dos sites, que publicam novos conteúdos constantemente. As efemérides no período foram o dia do Ar (11.04), o dia da Terra (22.04), o dia do Mundial Meio Ambiente (05.06) e o dia dos Oceanos (08.06); já declarações que geraram pauta são de pessoas públicas como o Secretário-Geral das Nações Unidas António Guterres, Papa Francisco, vice-presidente do Brasil Hamilton Mourão e a jovem ativista Greta Thunberg; no Brasil, particularmente, a fala do ministro de meio ambiente, Ricardo Salles, que evidenciava sua estratégia de flexibilização ambiental justo no período em que a atenção na mídia estava na cobertura da pandemia. Ainda, relatórios e comunicados de entidades como ONU, Aliança Europeia da Saúde Pública, Organização Meteorológica Mundial, Sistema de Alerta ao Desmatamento do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazónia e manifestos de associações ambientalistas como a Zero, Quercus e WWF.

A partir disso, realizou-se uma análise temática, baseada na Análise de Conteúdo, organizada nas seguintes categorias e subcategorias:

a. Crise sanitária (engloba as notícias com enfoque predominante nas causas e efeitos imediatos do controle da pandemia de coronavírus).

  1. Origem da pandemia: notícias que discutem a relação da doença com a degradação ambiental.
  2. Resíduos: informações sobre como descartar e coletar os resíduos para evitar contaminação e maior impacto ambiental.
  3. Alteração de atividades: notícias que partem do distanciamento social necessário para controle do contágio do vírus para anunciar novos formatos e programações virtuais ou comunicar interrupções de obras.
  4. Morte de autoridade científica: referente ao falecimento de um cientista do IPCC devido à covid-19, assim como pessoas que tiveram contato com ele.
  5. Medidas de monitoramento: ferramentas para auxiliar no combate ao coronavírus.

b. Crise humanitária (reúne as notícias com ênfase nos aspectos humanos derivados do contexto da pandemia).

  1. Modos de vidas: mudanças sofridas pelos povos tradicionais e pessoas em situação de vulnerabilidade, como questões culturais e de subsistência que colocam em xeque a vida.
  2. Desigualdades sociais: aumento da fome, do desemprego, etc.
  3. Mudanças políticas e sociais: análises de longo prazo.

c. Crise estritamente ecológica (centra-se nas notícias que abordam a natureza no contexto da pandemia, retirando os danos diretos causados ao homem – já que eles estão enquadrados em crise humanitária).

  1. Flexibilização da legislação: oportunidade de desmontar as políticas públicas ambientais por conta da pandemia.
  2. Licenciamentos: situações alteradas pelo contexto da pandemia.
  3. Fauna e flora: cuidados e curiosidades sobre animais e vegetação.
  4. Desmatamento e queimadas: envolve informações sobre o aumento do desmatamento no Brasil e sobre o combate a crimes ambientais, sobretudo desmate e queimadas.
  5. Efeitos positivos na natureza: aborda o fato de existir menos poluição e mais liberdade para os animais selvagens.

d. Crise climática (enfatiza que a emergência climática persiste, mesmo com a existência da pandemia).

  1. Emissões: engloba notícias que tratam do aumento ou redução de gases de efeito estufa (GEE) no período da pandemia.
  2. Eventos extremos: consequências das mudanças climáticas.
  3. Alertas: notícias que destacam a questão climática como problema urgente.

Embora concordemos que tais crises (sanitária, humanitária, estritamente ecológica e climática) se imbriquem, realizamos uma separação, para fins metodológicos, por predominância de abordagem, de modo a esmiuçar os conteúdos mais recorrentes neste período.

5. Discussão e resultados

Recordamos que nossos objetivos são identificar as relações entre a crise sanitária e a ambiental ou climática (entendemos esta última como mais específica, embora possa ser abarcada pela primeira), assim como as recorrências temáticas que articulassem a questão ambiental com a pandemia. Com a comparação entre sites de Brasil e Portugal, buscamos compreender as diferenças e semelhanças da cobertura ambiental entre os países neste momento atípico.

No gráfico da Figura 1 apresentamos a divisão das notícias, por país, segundo a classificação mais geral, por crises. Nota-se que a emergência climática foi pouco abordada nos dois países, sendo ainda menos frequente nas notícias do Brasil.

Figura 1: Temática das crises nas noticias

A crise sanitária foi a que mais teve destaque no corpus, representando o maior volume de notícias em Portugal, seguida pela crise climática, algo bem diferente do que aconteceu no Brasil. A Figura 1 mostra que não há muitas concordâncias entre as duas coberturas, apesar da coleta ter sido realizada a partir das mesmas combinações.

Na categoria mais acionada em Portugal, crise sanitária, as subcategorias mais recorrentes foram resíduos e medidas de monitoramento, o que faz sentido pela forte mobilização de enfrentamento à pandemia liderada pelo governo nesse país. No Brasil, apenas uma das notícias mencionava uma ferramenta de monitoramento.

No SIC, as notícias variaram entre como descartar resíduos corretamente para evitar a contaminação da doença e o impacto do uso de produtos descartáveis, como máscaras e luvas, e o novo aumento no uso de plásticos. Este último é um tema sensível à UE, que tem como meta acabar com as embalagens de plástico descartável até 2030. Entre as notícias estão, por exemplo, “Para que lixo se deve deitar uma máscara descartável?” 6(14.06) e “Máscaras e luvas descartáveis estão a criar ‘tsunami’ de resíduos nos oceanos7 (03.06). Já a matéria “O calor do verão poderá ajudar a vencer o novo coronavírus?”8 (04.04) explica a tendência de disseminação do vírus relacionada com variações sazonais, mas não aborda as mudanças climáticas. No G1, a subcategoria resíduos aparece três vezes – uma delas até com enquadramento positivo: “Quantidade de lixo recolhido em abril é menor que em março, durante início de distanciamento social em Uberlândia”9 (27.05).

No site brasileiro tem destaque o grande número de notícias que tratavam da alteração do formato presencial para o virtual, uma das medidas amplamente adotadas, em diferentes setores, para evitar aglomerações. Dentre as 15 notícias categorizadas em crise sanitária, seis abordavam mudanças em relação à estrutura de um evento e outra informava a interrupção de uma obra por conta da situação. No SIC, apenas uma notícia fez referência a alteração de evento para modelo online para evitar aglomerações, do movimento Fridays for Future: “Covid-19 obriga greve climática mundial a assumir formato digital”10 (24.04).

Figura 2. Crise sanitária

A única notícia do corpus que revela uma conexão da pandemia com a questão ambiental de forma explícita e central é brasileira: “Do nipah ao coronavírus: destruição da natureza expõe ser humano a doenças do mundo animal” 11(07.04), a partir da BBC. Nela as mudanças climáticas são citadas como um dos fatores que provocam expulsão de animais de seu habitat original, forçando contato com animais de outras espécies – o que gera condições para “pulo” de patógenos entre eles.

Ao tratar da categoria crise estritamente ecológica, chama a atenção a disparidade entre as coberturas brasileira e portuguesa. No G1 foi a categoria que mais teve ênfase no corpus (22 notícias), enquanto no SIC foi justamente aquela menos acionada (três notícias). Isso pode ser entendido pelo próprio contexto ambiental brasileiro, que sofria danos com desmate e queimadas no período, assim como uma série de ações a favor do desmonte da política pública ambiental. Logo, no G1, as subcategorias desmatamento e queimadas (12 notícias) e flexibilização da legislação (quatro notícias) - ancorada na repercussão da fala do ministro do meio ambiente do dia 22.05: “Ministro do Meio Ambiente defende passar ‘a boiada’ e ‘mudar’ regras enquanto atenção da mídia está voltada para a Covid-19”12- ficaram em evidência. Com a eclosão da pandemia no Brasil, abriu-se uma brecha para avançar nesse processo de devastação, afinal desmatador não faz home office (expressão usada como alerta por ambientalistas neste período).

A destruição da Amazônia brasileira foi pauta também em Portugal duas vezes. A primeira notícia, “Brasil atribui aumento da desflorestação na Amazónia ao coronavírus” (26.05), surge da declaração do vice-presidente brasileiro, que sugere que medidas de isolamento adotadas no país teriam provocado a diminuição de ações de controle na floresta e aumento da extração ilegal. A segunda é sobre os dados oficiais: “Desflorestação da Amazónia brasileira aumentou 54% nos últimos 10 meses” (16.06). Fora essas, a única matéria dentro desta crise dizia respeito sobre à categoria fauna e flora, publicada no Dia dos Oceanos: “ONU alerta para a necessidade de proteção das pradarias marinhas” (08.06).

Figura 3. Crise estritamente ecológica

Ainda sobre a crise estritamente ecológica, constatamos mais uma tentativa de mostrar um lado positivo neste contexto. No dia 23.05, o G1 publica “Bicharada ‘solta’, céu limpo e ar puro: os retratos da natureza em tempos de coronavírus”13, buscando salientar que o distanciamento social, as atividades mercantis reduzidas e a menor circulação de veículos beneficiou a natureza, reduzindo inclusive as emissões de GEE em nível mundial. No entanto, faltou a ressalva que esse suposto efeito positivo é temporário e não significa que dias em casa serão a resolução de um problema que é muito mais amplo. Em Portugal não foram encontradas notícias com tal abordagem.

A respeito da categoria crise humanitária, no Brasil ficou evidente a subcategoria modos de vida, relativa às mudanças sofridas pelos povos tradicionais e pessoas em situação de vulnerabilidade, como mostra a Figura 4, sendo que três das nove notícias explicitavam os receios dos indígenas. No dia 11.06 foi publicada a matéria relativa ao impacto da pandemia na questão cultural: “Coronavírus chega ao Parque do Xingu e leva líderes indígenas a cancelar o Kuarup, tradicional homenagem aos mortos”14; e no dia 27.06 a questão do genocídio apareceu: “Indígenas na BA falam sobre preocupações e desafios das comunidades durante pandemia: ‘Medo maior é de novo genocídio’”15. Antes de junho, no dia 25.05, o G1 já tinha publicado matéria da BBC sobre a situação indígena nos Estados Unidos: “Coronavírus nos EUA: a ‘tempestade perfeita’ detonada pela pandemia na maior reserva indígena dos EUA”16.

Figura 4. Crise humanitária

Em Portugal, a subcategoria desigualdades sociais teve mais relevo, com abrangência internacional. Das oito notícias identificadas em crise humanitária, quatro delas são oriundas de declarações do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, que é português, e de planos de ação global da ONU para conter a pandemia. Nas notícias “Pandemia criou ‘emergência alimentar’ global que poderá afetar milhões, alerta Guterres”17 (09.06) e “Guterres diz que crise sanitária é uma oportunidade de reconstrução”18 (28.04) há menção sobre a necessidade de trabalhar para melhorar a relação com a natureza e o clima.

Por fim, em relação à crise climática, a subcategoria alerta ressalta a declaração do Papa Francisco, no dia da Terra, e da ativista Greta Thunberg, em discurso no Parlamento Europeu. Ambos fizeram um apelo por um trabalho conjunto entre líderes mundiais no tratamento urgente face às alterações climáticas e a pandemia. Thunberg afirmou que estamos em um “ponto de mudança social”, interligando a crise climática e a justiça social. Em outra notícia, o fator da mudança social já havia aparecido “Crise causada pela covid-19 ‘é trágica’, mas ‘uma grande oportunidade’ para uma nova relação com a Terra”19 (21.05). A matéria revela que personalidades portuguesas organizaram uma carta de apelo aos decisores políticos na qual sustentam: “Esta crise convidou-nos a perceber o que é essencial nas nossas vidas e a refletir sobre os hábitos e comportamentos que não só estão por detrás da sua origem, como potenciaram a sua globalização”.

Outra matéria que apresenta a conexão entre fatores ambientais e a pandemia, e alerta para a necessidade de uma ação coletiva é: “WWF alerta para risco de novas pandemias”20 (17.06). O texto surge a propósito do relatório lançado pela WWF chamado “Covid-19: apelo urgente para proteger pessoas e animais”.

No âmbito das emissões de GEE, “Repensar a cidade depois da pandemia”21 (21.04) aborda o plano das autoridades de Milão para que a poluição não volte a ser igual ao período pré-pandemia. Durante o período de confinamento o tráfego de automóvel reduziu 30 a 75% e a cidade vai ampliar espaços para circulação de bicicleta e a pé, ainda este verão.

No G1 esta foi a categoria menos presente, sendo que metade delas é associada ao alerta de que o problema das mudanças climáticas não desapareceu. A matéria “Cinco potenciais crises internacionais para além da pandemia de coronavírus”22 (17.05), produzida pela BBC, traz uma análise sobre outras crises internacionais que podem impactar ou agravar a situação mundial, dentre elas a crise climática. Já em 22.06, Dia da Terra, há a repercussão da fala de uma famosa ativista climática, na matéria: “Mudança climática é ‘tão urgente’ quanto coronavírus, diz Greta Thunberg”23.

A outra metade trata do aumento ou redução de GEE durante a pandemia e de um estudo sobre o aumento de eventos extremos e a dificuldade de enfrentamento nos países mais vulneráveis, como os da América Latina (algo que também acontece no combate ao coronavírus).

Figura 5. Crise climática

6. Considerações finais

Emboras as crises analisadas na cobertura ambiental/climática feita durante a pandemia do coronavírus no G1 e SIC possuam vários graus de interdependência, verificamos uma fragmentação de temas e subtemas que dificulta a compreensão do todo. Em razão da ruptura sociedade-natureza e da própria racionalidade econômica dominante, oriunda de uma forma de ser que compartimentaliza processos, como aponta Morin e Kern (2003), notamos que são poucas as vezes que as crises são apresentadas de forma conectada. Ressalta-se que dentre todas as notícias dos dois países apenas uma delas discutiu a degradação ambiental como possível causa do surgimento da crise sanitária.

Comparativamente, G1 debruça-se sobre a crise estritamente ecológica, muito por conta do aumento de queimadas e desmatamento, voltando-se para o contexto nacional, enquanto SIC pauta notícias com relação mais direta à crise sanitária, sublinhando a preocupação com resíduos, principalmente os plásticos, e sendo mais influenciada pelo cenário da UE. No caso brasileiro, além da problemática ambiental, a fumaça fruto das queimadas desencadeia e agrava doenças respiratórias em um momento no qual já há sinais de colapso nos hospitais e falta de respiradores, impactando ainda nas exportações do agronegócio (suspeito de participar das atividades criminosas), o que interfere na economia. Apesar dos múltiplos efeitos gerados pelo desmate e queimadas na Amazônia, associados diretamente com a crise climática, não há a explicitação entre as relações das crises de forma aprofundada.

Em Portugal, foram vários os casos de notícias pautadas por autoridades e relatórios oficiais e, pelo menos, três efemérides foram usadas como gatilhos para a cobertura ambiental, enquanto no Brasil tais situações foram residuais. É preciso recordar que, apesar dos dois países viveram os efeitos da pandemia, o enfrentamento por parte do poder público foi mais eficiente em terras portuguesas, aumentando o trabalho e responsabilidade da cobertura da imprensa no Brasil – onde há uma enxurrada de desinformação e ausência de coordenação no combate ao vírus. Assim, é provável que, em função do descontrole do contágio e gravidade da situação brasileira, não haja muita disponibilidade por parte dos jornalistas de ampliarem as interfaces entre as crises, já que há uma demanda grande de cobertura no factual e matérias mais contextualizadas e de cunho analítico precisam de conhecimento e tempo para produção. Decorrência disso é o fato de as notícias mais analíticas que compõem o corpus, em sua maioria, serem oriundas de agências internacionais em ambos os países.

O entrelaçamento das crises climática e sanitária, procurado ao longo da análise, revelou-se bastante superficial, embora partilhem de uma série de pontos comuns, como apresentado no marco teórico. As pautas ambientais surgem quase como um fator paralelo, sem tensionamentos diretos com as causas e efeitos da pandemia. As diferentes crises (sanitária, estritamente ecológica, humanitária e climática) se cruzam no mundo real, mas tendem a serem vistas como problemas isolados no sites de notícias.

Ao estudar a cobertura ambiental durante a pandemia de coronavírus fica evidente que estamos imersos em um conjunto policrísico (Morin & Kern, 2003), mas que se apresenta desconectado – inclusive pela lógica jornalística, que reforça e amplifica essa forma fracionada de ver, perceber e estar no mundo.

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4 O site do Ministério da Saúde, que atualizava diariamente o balanço dos casos de contaminação e mortes por covid-19, foi retirado do ar no dia 4 de junho de 2020. O retorno das publicações, no dia 6 de junho, passou apenas a informar os casos das últimas 24h. A decisão, bastante criticada por aqueles que defendem a transparência e o livre acesso às informações, foi repercutida no dia 5 de junho, Dia do Meio Ambiente.

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