TTULO

A dimensão comunicacional como recorte metodológico para o estudo das migrações

Autores

Pedro RUSSI 

Profesor de la Universidad de Brasilia (UnB) - Brasil, en la Facultad de Comunicación (FAC) - Licenciatura y Postgrado. Doctor y Magister en Ciencias de la Comunicación por la UNISINOS-Brasil. Investigador Colaborador del Centro Scalabriniano de Estudios Migratorios (CSEM/Brasil). Coordinador del Núcleo de Estudios de Semiótica en Comunicación (NESECOM-UnB). Profesor en el Postgrado en «Desenvolvimento Sociedade e Cooperação Internacional» (Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares - CEAM/UnB).

Correo: pedrorussi@gmail.com

Delia DUTRA

Universidade de Brasília, Brasil Bolsista PNPD/Capes e docente de Metodologia de Pesquisa no Programa de Estudos Comparados sobre as Américas - Universidade de Brasília. Doutora em Sociologia e Mestre em Ciências da Comunicação. Livros: Migração internacional e trabalho doméstico. Mulheres peruanas em Brasília(2013), Vidas em Trânsito. Mudanças no percurso migratório de migrantes urbanos (2011, Org.).

Correo: deliadutra@gmail.com

Resumo

O presente texto propõe uma reflexão sobre o lugar do comunicacional nos processos metodológicos na pesquisa qualitativa com migrantes. Para isso, toma-se como base para análise duas experiências de pesquisa realizadas no Brasil junto a migrantes. Analisa-se a contribuição do conceito de produção do espaço psicofísico, enquanto operador metodológico que permite discutir as imbricações de diversas dimensões da experiência de vida em migração. Conclui-se que, o comunicacional demanda articulações e cuidados metodológicos que devem ser pensados nessa especificidade para entendê-lo melhor dentro da dinâmica da experiência migratória.

Palavras-chave: metodologia qualitativa, migrações, comunicação, espaço psicofísico

Resumen

El presente texto propone una reflexión sobre el lugar de lo comunicacional en los procesos metodológicos en la investigación cualitativa con migrantes. Para esto, se toma como base para análisis dos experiencias de investigación realizadas en Brasil. Se analiza la contribución del concepto de producción del espacio psicofísico como operador metodológico que permite discutir las imbricaciones de diversas dimensiones de la experiencia de vida en migración. Se concluye que, lo comunicacional demanda articulaciones y cuidados metodológicos que deben ser pensados en esa especificidad, para entenderlo mejor dentro de la dinámica de la experiencia migratoria.

Palabras clave: metodología cualitativa, migraciones, comunicación, espacio psicofísico

Abstract

This article offers some reflections on the role of communication in qualitative research methodology related to migrants. The analysis is based on two field researches involving migrants in Brazil. It focuses on the concept of psycho-physical space production, as a guiding method to analyze the migration life experiences and its different dimensions. It concludes that communication require methodological assessment and caution, in order to understand them in the specific context(s) of migration.

Keywords: qualitative methodology, migrations, communication, psycho-physical space


Introdução

O presente texto propõe uma reflexão metodológica sobre o lugar do comunicacional na pesquisa qualitativa com migrantes. Para isso, toma-se como base para análise a experiência de duas pesquisas: uma, realizada junto a mulheres migrantes peruanas trabalhadoras domésticas e residentes na cidade de Brasília[1]; outra, realizada junto a migrantes uruguaios estabelecidos no sul do Brasil[2].

No primeiro caso, buscou-se compreender como um grupo de mulheres peruanas vivencia e explica a experiência de chegar em Brasília e como dela se apropriam, i.e. como elas produzem o seu espaço psicofísico. No segundo caso, buscou-se discutir aspectos relativos a um jogo de (in)visibilidade mediática que colocam em relação a cultura do Brasil e do Uruguai com uruguaios residentes no Sul do Brasil, retornados e os que desejam migrar para o Sul do Brasil.

O conceito de produção do espaço psicofísico, enquanto operador metodológico, busca discutir as diversas dimensões da experiência de vida em migração, ou seja, indo além da separação entre plano material e subjetivo, entre passado e presente, entre origem e destino, entre ser daqui ou ser de fora. A contribuição passa porque ele permite articular as imbricações entre as diversas dimensões daquilo que significa viver sendo migrante: a dimensão comunicacional, a de gênero, de origem étnica e de classe, e outras.

Para os propósitos do presente texto, o comunicacional é o critério de recorte para a discussão e análise. Ou seja, busca-se problematizar como esse aspecto da vivência dos migrantes perpassa outras dimensões da vida em migração. Entendemos que o comunicacional demanda articulações e cuidados metodológicos que devem ser pensados nessa especificidade, para entendê-lo melhor dentro da dinâmica da experiência migratória. É o espaço psicofísico compreendido a partir das matrizes e atravessamentos comunicacionais.

O texto basicamente se organiza em quatro partes: (i) ponderações conceituais sobre o espaço psicofísico; (ii) elementos reflexivos e experiências no comunicacional mediático e não mediático; (iii) apontamentos metodológicos comunicacionais; (iv) inferências a modo de conclusão.

O espaço psicofísico dos migrantes

O espaço social, assim como o tempo social, pode ser entendido como sendo produto da interação social. Seguimos a perspectiva de Lefebvre (2000), para quem o espaço intervém na própria produção, organização do trabalho produtivo, transportes, etc., ou seja, no cotidiano da vida em sociedade. Assim, segundo o autor, o espaço não pode ser concebido como passivo, vazio, ou não tendo outro sentido que aquele dos “produtos”, de intercambiar, consumir, desaparecer.

Nessa perspectiva, o conceito de espaço une o mental e o cultural, o social e o histórico, conformando um processo complexo que, segundo Lefebvre, envolve simultaneamente a descoberta (espaços novos, desconhecidos), a produção (antes mencionada) e a criação (a paisagem, a cidade com suas especificidades).

Em outras palavras, podemos identificar uma justaposição de uma dimensão subjetiva e outra objetiva - ou de uma dimensão material e outra simbólica, na produção do espaço durante a vida em migração que só podem ser “separadas” para efeitos de análise. Nas palavras de Lefebvre, a produção do espaço une aspectos da prática coordenando-os, reunindo-os, dentro de uma “prática” precisamente (Lefebvre, 2000, xxii).

Ao discutir sobre a produção do espaço psicofísico, nesta instância, busca-se enfatizar a dinâmica inter-relação entre os elementos objetivos do espaço físico, material e econômico dos migrantes e os elementos subjetivos do seu espaço individual que dizem respeito à sua história pessoal e nos falam de um processo de socialização. Ou seja, elementos objetivos tais como: o acesso ao emprego e aos serviços públicos de transporte e saúde, o acesso aos meios de comunicação, as possibilidades de participação (ou não) de associações religiosas ou de lazer e de eventos culturais e, finalmente, as políticas de migração do país. No que tange aos elementos subjetivos do espaço, identificamos: a história de vida pessoal e a cultura de origem, o estado de espírito, os hábitos, os valores e as convicções dos migrantes.

Tomamos de Robert Park o termo psicofísico que o autor utilizou ao se referir à cidade. Para pesquisar a cidade, segundo Park (1979) é preciso entendê-la como um mecanismo psicofísico, como uma unidade geográfica, ecológica e econômica. Como área cultural, segundo o autor, acaba sendo caracterizada pelo tipo peculiar dos seus habitantes, ao ponto de ela ser do jeito que se manifesta nos hábitos e costumes das pessoas que a habitam, incluindo “os de fora”, os migrantes.

Em texto publicado em 1928, Park propõe o conceito de "homem marginal" como sendo um híbrido cultural (Park, 1928). Ele se inspira na experiência do judeu (sempre migrante) que sai do gueto e participa da vida da cidade e identifica nele um novo tipo de personalidade de indivíduo que vivencia de forma simultânea duas tradições e experiências culturais. E é nessa linha que o autor, ao desenvolver seu conceito de mecanismo psicofísico, está identificando duas formas de organização da cidade que interagem e se molda mutuamente: uma moral e uma física e que não podem ser separadas, nem pensadas de forma isolada (Dutra, 2013, pp. 63-65).

No entanto, com base em pesquisas desenvolvidas, acima mencionadas, acrescentamos que a riqueza e o potencial oferecido pelas pesquisas qualitativas feitas junto a coletivos de migrantes passa, justamente, pela existência de inúmeras nuances na forma de interação entre essas duas dimensões do espaço vivido pelos migrantes: moral e física, material e simbólica, objetiva e subjetiva.

Disso decorre que cada habitante da cidade conformará o seu espaço que o caracteriza e o “individualiza” no processo social, parafraseando Elias (1994). Assim, haverá sempre uma dimensão coletiva presente ao analisar a produção do espaço individual e vice-versa. De acordo com Ostrowetsky (1996, p. 10) o espaço está em toda parte e não é a cidade, mas as formações sociais e os seus regimes de propriedade que deveriam a priori dar o tom às relações sociais e as suas formas concretas.

Nesse sentido, ao propor a denominação de espaço psicofísico dos migrantes, está-se apontando também para o fato que este não pode somente ser caracterizado e explicado pela cidade ou o bairro onde se estabelecem os migrantes. Isso porque reconhecemos que se trata de um espaço próprio, individual, mas que está afetado por: (a) uma situação estrutural econômica e política do país de origem e de acolhida, (b) lógicas de interação urbanas próprias às cidades que ele vivenciou, (c) uma língua materna e outra(s) adotada(s) no país(es) de acolhida, (d) a possibilidade ou não de trabalho e de participação em atividades fora desse ambiente, (e) a pertença a uma classe social afetada pela condição de gênero, de status migratório e profissional, e por último, porém não menos relevante, (f) as chances de acesso e as formas de apropriação dos meios e dispositivos de comunicação.

O comunicacional: mediático e não mediático

Quando se desenvolvem pesquisas na temática das migrações contemporâneas desde uma perspectiva comunicacional é necessário deixar claro não unicamente o foco estudado, mas também os processos comunicacionais da experiência migratória; i.e., as dinâmicas comunicativas, vivenciadas e mediáticas. Isso possibilita entender as interações estabelecidas entre os sujeitos, migrantes, e a sociedade receptora.

Tal escolha ancora-se na compreensão da comunicação como processo de trocas simbólicas, i.e., a sociabilidade não reduzida à causa→efeito tecnológica. Os processos de comunicação não podem simplesmente ser projetados como causa, mas como forma de imaginar (projeção), uma forma de ser e estar nas interações com outro.

Nesse sentido, estudar os processos comunicacionais configurados pela interação entre os processos de mediatização (materialidade e lógicas mediáticas, de matrizes-mediações mediáticas, por exemplo: notícia(s) via jornais-internet...) e os processos de materialidade não mediática (outros migrantes... matrizes e mediações entendidas como antropológicas), implica especificidades metodológicas (Russi, 2009). Por conseguinte, implica ter uma aproximação comunicacional - via narrativas - aos processos de interação social, nos diferentes momentos do processo migratório (retrospectiva, presente, perspectiva). Trata-se de apropriações que dinamizam e produzem o espaço psicofísico dos migrantes no decorrer das significações conferidas pela interação com as materialidades mediáticas.

Desta maneira, é necessário construir um esquema mental analítico comunicacional -por parte dos pesquisadores-, para abarcar as reciprocidades psicofísicas na experiência da migração: processos de mediatização, materializados nos diferentes dispositivos (internet, sites para/dos migrantes, e-mail, revistas, cartas, jornais, vídeo, TV, rádio, boletins...) e nas interações entendidas especificamente como instâncias de encontros (grupo, família, bairro, escola, contato com outros migrantes...).

As próprias narrativas dos migrantes demandam compreender as dinamizações mediáticas como ações intermediárias que atravessam o cotidiano coletivo e individual. Entretanto, não pode haver ingenuidade analítica sobre as materialidades não mediáticas, já que elas entrecruzam as dinâmicas de mediatização, i.e., uma sociedade mediatizada onde as ações dos sujeitos reelaboram as tramas para indagar o cotidiano a partir do convívio entre ambas as esferas.

À vista disso, se distinguem os produtos mediáticos como instrumentos de sondagem (dinamizados pela materialidade do uso) para o conhecimento do novo espaço social. Assim, os meios de comunicação atuam como fornecedores, pelo consumo, de imagens de vida coletiva ao possibilitar e permitir compartilhar inúmeras temáticas e problemas desse novo cenário de destino. Tais dinâmicas conformam informações colhidas, pensadas e processadas, a partir das quais o indivíduo descobre uma “outra” realidade social pelas re-significações dos novos e outros fatos (Russi, 2009).

Em outras palavras, o espaço psicofísico é entendido através dos meios de comunicação como forma de conexão ao mundo (micro e macro) da vivencia migratória. Desse modo, configura-se um desafio à condição de isolamento e/ou à dificuldade de participação dos migrantes das lógicas culturais locais. Contudo, o simples fato do migrante ter contato com os dispositivos de comunicação não produz significado (sentido), existem outras articulações que significam e re-significam a ação de estar e representar um lugar, porque os meios aparecem, nos diferentes relatos, como um dos elementos centrais para defrontar esse isolamento. É através do processo de apropriação mediática que os migrantes confrontam a vivencia de separação; portanto, são os sujeitos que fazem esse processo e não o meio de comunicação em si.

Nesse sentido, articulam-se três esferas temporais: (i) passado; (ii) presente; (iii) futuro. No primeiro caso, com relação ao passado, alguns migrantes falam de um estranhamento e vivência de inacessibilidade tecnológica no país de origem - especialmente no caso da pesquisa com migrantes peruanas em Brasília. Os meios de comunicação não estão ou não são centrais nesse passado. Temporalidade que se articula com a segunda, tempo presente, quando aquele desconhecimento é ultrapassado pelas apropriações de diferentes dispositivos como Skype, e-mail, Internet. Com relação à terceira temporalidade, futuro, vale destacar as apropriações atuais preparando ou visualizando um futuro que, embora possa nunca acontecer da forma exatamente esperada, está possibilitando encarar o desafio do isolamento graças aquilo que está por vir. Por exemplo, muitos dos migrantes - pelo seu engajamento religioso, tema que merece outra intensa reflexão - compram DVD religiosos, CDs nas igrejas que participam, para o dia que conseguirem retornar. Quando? Ainda não sabem, mas o que interessa que esse futuro esperado configura formas de consumo aqui e agora, porém, ao mesmo tempo futuras.

Vale acentuar que as três esferas não estão claramente separadas, senão que uma auxilia a outra no entendimento e articulação do espaço psicofísico. Elas configuram uma relação temporal, uma narrativa histórica que pode ser entendida -como bem destacam os processos da pesquisa-, a partir das matrizes comunicacionais. E, para isso, necessita-se uma compreensão metodológica daquilo que implica o comunicacional nessa narrativa. Porque as três esferas estão pautadas ou se estabelecem narrativamente por intermédio dos meios de comunicação, daí a importância de pensar desde esse lugar os procedimentos metódicos.

São os próprios migrantes, nas suas diversas narrativas, que “trazem” os meios de comunicação como organizadores que pautam a relação que se estabelece entre as três esferas. Tal situação aprecia-se desde a fase exploratória das pesquisas, fortalecendo-se nas entrevistas em profundidade historia de vida mediática. Desse modo, se acentua a demanda por problematizar a relação que o migrante estabelece com os meios de comunicação, e assim poder compreender como é que os migrantes produzem seu espaço de vida em migração, i.e., o seu espaço psicofísico.

A modo de exemplo, no caso das migrantes mulheres peruanas, é recorrente nas falas delas a referência a um outro que é masculino (marido, namorado, pai, filho, Deus, padre, pastor) cuja relação vai sendo re-configurada conforme passa o tempo. Ou seja, se dá uma re-significação da relação que mantém com seus referentes masculinos fortemente pautada pela apropriação que elas fazem dos meios de comunicação. Já no caso dos migrantes uruguaios, todos fazem referência ao silenciamento mediático do país de origem nos meios de comunicação brasileiros; e isso, na perspectiva dos próprios migrantes, parece outorgar ao país uma categoria de inferioridade.

Caberia pergurtar-se, quando se apresentam situações desse tipo na pesquisa com migrantes, como lidar com tais evidências que surgem da pesquisa empírica? Isso no sentido de apontar a necessidade de serem reconhecidos os movimentos de leitura que os migrantes fazem sobre sua experiência de vida em migração e que podem ser interpretados como rituais de desterritorialização que desenham outra geografia (Dutra e Russi, 2012). Isto é, "novos" e dinâmicos mapas simbólicos em contraponto, por exemplo, àquele geopolítico historicamente definido (no caso do exemplo dos migrantes uruguaios) ou àquele culturalmente apreendido (no caso do exemplo das migrantes peruanas) como forma de um dever ser pautado pelas instituições e pelas relações sociais de gênero e que a experiência de vida em migração re-significa, produzindo uma reconfiguração permanente do espaço psicofísico dos migrantes.

Apontamentos metodológicos

O método qualitativo busca desenvolver potenciais objetos analíticos em um contexto específico e a análise centra-se no processo que se contextualiza e se observa integrado a outras práticas sociais e culturais mais amplas (Rodrigo, 2001, p.150). É nesse ponto que entendemos a pauta proposta pelas narrativas dos migrantes sobre a intensidade dos meios de comunicação nas suas leituras e ações no ato de configurar o espaço psicofísico. As próprias falas anunciam isso, não que elas construam o objeto de pesquisa, senão que propiciam o fenômeno para ser problematizado a partir da nossa construção do problema de pesquisa articulando a migração e o comunicacional (mediático e não mediático).

Nesse sentido, a abordagem qualitativa permite entender a natureza de um determinado fenômeno social e ver nela informações, especificidades e significações da migração estudada. Assim, compreender as reconfigurações das matrizes culturais, e dessa forma tentar explicitar e explicar tais arquiteturas da interação eu-outro (Russi, 2009).

Há necessidade de construir um olhar que busque entender os processos com a perspectiva que pode ser entendida como “de dentro”, compreendendo os sujeitos no âmbito em que atuam e interagem (Reichardt e Cook, 1986, p. 29) - a dinâmica do cotidiano. Desse modo, nos enfrentamos àquilo que não é um atributo inerente ao instrumento de pesquisa, e sim das memórias e resíduos porque é o sentido que converte a cada um em espectador e ator.

Entende-se que o reconhecimento da memória no processo das narrativas vai além da simples lembrança, assim pode-se falar de métis, i.e., a “inteligência astuciosa... como jogo de práticas sociais... jogos da astúcia” (Détienne e Vernant, 2008 p. 11, 15) que, nas palavras de Certeau, “a métis aponta para um tempo acumulado, que lhe é favorável, contra uma composição de lugar, que lhe é desfavorável” (2007, p. 146), e fundamenta-se em três princípios: a ocasião, os disfarces e uma paradoxal invisibilidade. Conceito que permite avançar para melhor compreender a articulação das esferas temporais.

 De um lado, a métis conta com o ‘momento oportuno’ (o kairós) e o aproveita: é uma prática temporal. De outro, multiplica as máscaras e metáforas: é uma prática de dissolução do lugar próprio. Enfim, desaparece no seu próprio ato, como que perdida no que faz, sem espelho para representá-la; não tem imagem própria. (Certeau, 2007, p. 161)

As dinâmicas e opções metódicas exigem cuidados por parte do pesquisador - vigilância epistemológica -, tanto nos processos das entrevistas quanto na sistematização dos dados para analisar as experiências dos processos comunicacionais dinamizados pelas diferentes interações que conformam a construção das identidades (matrizes) culturais de imigração. Assim, os processos metódicos vão sendo construídos “em paralelo” ao decorrer da pesquisa visando trabalhar como método a história oral, como técnica a história de vida[3] (mediática) e como instrumento as entrevistas.

Nessas dinâmicas, a materialidade comunicacional apresenta-se como fenômeno (sites, jornais impressos/web/TV, DVDs, CDs...), o que possibilita entender os processos comunicacionais e mediáticos, como sentido (significação) da configuração do espaço psicofísico e afrontamento ao isolamento. É precisamente assim que a história de vida possibilita perceber as matrizes culturais atuando e construindo valores de interação, diáspora e leitura dos outros a respeito das matrizes mediáticas. Dessa forma, tais matrizes atravessam os acontecimentos cotidianos, redefinindo as realidades sociais; o mundo experimentado.

Jovchelovitch e Bauer (2002, p. 110) destacam o tripé: narrativa↔realidade↔representação, porque comporta entender a própria transformação do tripé, não circunscrito à cotidianidade imediata ou local; lembramos aqui das três esferas temporais onde o sujeito transborda-as, reconhecendo sua outredade (Espina, 2003, p. 157), ao re-significar as projeções partindo das distinções “recuperadas da memória”. Há quatro nodos, que fazem das narrativas (entrevistas) momentos e caminhos para entender o problema da pesquisa (Jovchelovitch e Bauer, 2002, p. 110).

  1. A narrativa privilegia a realidade do que é experienciado pelos contadores da história: a realidade de uma narrativa refere-se ao que é real para o contador de história;
  2. As narrativas não copiam a realidade do mundo fora delas: elas propõem representações, interpretações particulares do mundo;
  3. As narrativas não estão abertas à comprovação e não podem ser julgadas como verdadeiras ou falsas: elas expressam a verdade de um ponto de vista, de uma situação específica no tempo e no espaço.
  4. As narrativas estão sempre inseridas no contexto socio-histórico. Uma voz específica em uma narrativa somente pode ser compreendida em relação a um contexto mais amplo: nenhuma narrativa pode ser formulada sem tais sistemas de referentes.

Levando-se em conta os movimentos da ação/ato de contar (homo narrans[4]), da narrativa (a forma-estrutura) e o do conteúdo (os resíduos), através da historia de vida mediática podem ser pensados dois tópicos essenciais - não descartando outros - para entender o processo migratório:

  1. Comunicacional (procurando as materialidades não mediáticas nas redes e interações dos sujeitos). Descobrir as matrizes da configuração de redes de migrantes. As matrizes do outro, desenhadas a partir dessas interações e, nelas, distinguir (diferenciar) o mediático que entraria no seguinte momento-fase;
  2. Comunicacional mediático, especificamente a relação do sujeito com diversos meios, apropriações e dinamização (perspectiva, presente, retrospectiva) da migração. Recuperar a concomitância mediática e migratória. As historicidades do sujeito e cenários, para reconhecer marcas mediáticas que revigoram e redesenham as matrizes de leitura das estranhezas e familiaridades.

As narrativas são costureiras do mundo que é social e não dado pela natureza, porque são vivências, i.e., ativamente reconstruído. Essa construção (ativa) é resgatada por meio das entrevistas, que permitem compreender as interações sociais que fazem o cotidiano significado. Daí que “a utilização de história oral [como método] no estudo das migrações não tem o caráter apenas de técnica de levantamento de dados, mas tem uma função epistemológica e ideológica” (Moraes e Menezes, 1999, p. 12). Continuando nessa linha, a narrativa,

ao estudar a experiência destes grupos, contribui para uma perspectiva teórica que contempla o agir humano no fazer-se da história, em que as práticas sociais são múltiplas, diversas e particulares. Coletar depoimentos orais numa sociedade marcada pela modernidade, pelo domínio da técnica, ciência e razão, do poder massificador da mídia, remete a pensar sobre o lugar da narrativa nesta sociedade em que o quotidiano é definido pelo tempo disciplinado, controlado, pelo ritmo do relógio. (...) Não há o desaparecimento da narrativa mas a sua ressignificação[5]. (Moraes e Menezes, 1999, p. 12)

A narrativa oral (na história oral) tem a característica de reconstrução das vivências e experiências, operando “com uma noção de passado que se prolonga no presente e se projeta no futuro. O processo histórico é, pois, algo que não se mostra acabado, com um início (...), mas apresenta-se em descontinuidades, rupturas, flashes e demoras” (Resende, 1999, p. 60). Desse modo, busca-se recuperar as matrizes residuais (Williams, 1979) através da memória (individuais e coletivas) de migração. Quer dizer, retomar, através da memória, aquela memória escondida; a do “momento oportuno” (Certeau, 2007).

Porque a memória tem um lugar neste texto que a procura entender a partir dos processos comunicacionais das interações entre migrante e cultura receptora. Qual esse lugar? O de ser entendida como o meio para a exploração do passado e não como instrumento. Dessa forma, remetendo àquela dinâmica proposta por Benjamin de “escavar e recordar”, compartilhando com ele a convicção de que a memória

é o meio onde se deu a vivência (...) Quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado deve agir como um homem que escava. (...) não deve temer voltar sempre ao mesmo fato, espalhá-lo como se espalha a terra, revolvê-lo como se revolve o solo. (...) Ou seja, as imagens que, desprendidas de todas as conexões mais primitivas, ficam como preciosidades nos sóbrios aposentos de nosso entendimento tardio, igual a torsos na galeria do colecionador (Benjamin, 1997, p. 239).

Nesse sentido, os migrantes são os principais atores para o resgate dos processos comunicacionais que, elaborando as representações sociais, constroem essa experiência psicofísica na migração. Fato articulado por meio de outros espaços discursivos como: materiais mediáticos, jornais, arquivos (álbuns) fotográficos, boletins, músicas etc. Cada fonte dessas permite entender as mediações nas leituras que dão forma ao social coletivo-individual representado e apresentado.

Inferências a modo de conclusão

A proposta de realizar uma reflexão metodológica, na esfera do comunicacional, torna-se o eixo na discussão do conceito espaço psicofísico na experiência migratória. A comunicação como um saber interdependente com outros, interroga sobre as suas particularidades, suas especificidades a partir das quais se relacionam com as outras disciplinas. A migração (na sua vivência do espaço psicofísico) pode ser estudada desde várias angulações, aqui interessa intensificar o olhar comunicacional, com base no processo metodológico.

As pesquisas realizadas (base para este texto) e outros trabalhos - resultantes em diversos artigos[6] -, possibilitam inferir sobre a necessidade de compreender melhor o que constitui estudar as migrações a partir do comunicacional (mediático e não mediático) quando se apresenta como cerne das significações não mais de “quem somos” e sim de “onde estamos” e de como tais espacialidades nos configuram e as configuramos? Assim, nossa inquietação se enraíza na circunstância de como estudar isso a partir da peculiaridade comunicacional.

Para compreender a relação estabelecida pelos migrantes com os meios de comunicação, i.e., desenhando uma ambiência mediática, deve-se distinguir, não para afastar e sim para articular, os processos comunicacionais interpessoais e os mediáticos. O discurso mediático seria o que Verón chama de “operadores semânticos”, pois “reemplazan interpretaciones que no se explicitan y análisis que no se formulan (...)” (1997, p. 12). Os meios, como estrutura e lógica de produção, apresentam interações nas lógicas e nos processos que a caracterizam como dispositivo mediático, assim, as distinções entre condições reais e condições representacionais no campo discursivo tornam-se mais tênues e complexas (Cogo, 2012, 2002). Em consequência os diferentes meios de comunicação tornam-se lugares onde se elaboram, negociam e difundem discursos, valores que atuam como mediações nos processos socioculturais.

Porém, a interação proposta pelo ambiente mediático institucionaliza o processo, porque as gramáticas que permitem a troca simbólica (p.ex., com aquilo que não conheço), não surgem do improviso e sim do estipulado, i.e., medido no esqueleto mediático. Aquilo que para Foucault é o lugar ocupado pelo enunciador no interior de uma determinada ordem institucional, e assim, a formação discursiva designa um conjunto de enunciados possíveis e interditos numa determinada configuração institucional (Foucault apud Rodrigues, 1996, p. 16). O comunicacional mediático também é atravessado por operadores do espaço social não mediático. Tal situação acarreta a necessidade de entender o mediático e o interpessoal como a encruzilhada entre dimensões diferentes de interação dos processos comunicacionais.

Observa-se maior tensão ao isolamento - assim como à dificuldade de participar da cultura da sociedade receptora - quando os migrantes vivenciam com mais competência os graus de autoconsciência (endógeno) e consciência cultural (exógeno) (Alsina, 1999, p. 164), configurando formas diversas de produção do espaço psicofísico. Quer dizer, uma dinâmica de significações que não pode ser simplificada numa operação linear.

Bibliografia

Amado, Janaína y Moraes, M. de. (Org.) (2001). Usos & abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV.

Benjamin, Walter (1997). Rua de mão única. Obras Escolhidas II. São Paulo: Brasiliense.

Bourdieu, P. (Coord.) (1997). A miséria do mundo. Petrópolis-RJ: Vozes.

Bosi, Ecléa (1979). Memória & sociedade: lembrança de velhos. São Paulo, SP. T.A. Editor.

Certeau, Michel de (2007). A Invenção do Cotidiano. 1- Artes de Fazer. Petrópolis: Vozes.

Cogo, Denise (2012). Cidadania comunicativa das migrações transnacionais: usos de mídias e mobilização social de latino-americanos en: Cogo, Denise; ElHajji, Mohammed; Huertas, Amparo (eds.) Diásporas, migrações, tecnologias da comunicação e identidades transnacionais. Barcelona: inCOM;UAB.

Cogo, Denise. Multiculturalismo e mídia impressa: dos “modos” de Zero Hora narrar os 500 anos de descobrimento do Brasil. NP: Comunicação para a Cidadania - Intercom /2001.

Détienne, Marcel; Vernant, Jean-Pierre (2008). Métis. As astúcias da inteligência. São Paulo: Odysseus.

Dutra, Delia (2013) Migração internacional e trabalho doméstico. Mulheres peruanas em Brasília. Brasília: CSEM; Sorocaba, SP: OJM.

Dutra, Delia e Russi, Pedro (2012). Lecturas y significados: vivencias mediáticas de mujeres peruanas, trabajadoras domésticas en Brasilia. Em Cogo, D.; ElHajji, M.; Huertas, A. (eds.). Diásporas, migraciones, tecnologías de la comunicación e identidades transnacionales. Barcelona: inCOM/UAB, p. 469-486.(http://www.portalcomunicacion.com/nov_editoriales_det.asp?id=2112&lng=por) (consulta: 01-02-2014)

Elias, Norbert. A (1994). Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Zahar.

Espina, M. P. Prieto (2003). Humanismo, complexidade e totalidade - O giro epistemológico no pensamento social, en: García, Regina Leite (Org.). Método; Métodos; Contramétodo. São Paulo: Cortez, p. 147-180.

Fausto Neto, Antônio (1999). Comunicação e mídia impressa. Estudo sobre a AIDS. São Paulo: Hacker Editores.

Fernandes, Florestan (1991). A reconstrução da realidade nas ciências sociais. Em Ianni, Octávio (Org.). Florestan Fernandes: Sociologia. São Paulo: Ática, p. 76-108.

Gaskell, George (2002). Entrevistas individuais e grupais. Em Bauer, W. Martin e Gaskell, G. (Orgs.). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som. Um manual prático. Petrópolis: Vozes, p. 64-89.

Grisa, Jairo (2003). Histórias de ouvintes. A audiência popular. Itajaí: Univali.

Halbwachs, M (1990). A memória coletiva. São Paulo: Vértice, Editora Revista dos Tribunais.

Josso, Marie-Christine (2004). Experiências de Vida e formação. São Paulo: Cortez.

Jovchelovitch, Sandra; Bauer, W. M (2002). Entrevista Narrativa. Em Bauer, W. Martin e Gaskell, G. (Orgs.). Pesquisa qualitativa com texto imagem e som. Um manual prático. Petrópolis: Vozes, p. 90-113.

Lefebvre, Henri (2000). La production de l’espace. Paris : Anthropos.

Le Goff, J (1982). Histórias e memória. Memória. Vol II. Portugal: Edições 70.

Moraes, Maria S. e Menezes, Maria A. de (1999). Migrantes temporários: fim dos narradores? Em Neho-história. Revista do Núcleo de Estudos em História Oral, n. 1, Nov., p. 11-32.

Mouillaud, Maurice; Porto, Sérgio D.; Duarte, Adriano R. et alli (1997). O jornal. Da forma ao sentido. Brasília: Paralelo 15.

Ostrowetsky, Sylvia (Ed.) (1996). Sociologues en Ville. Paris : L’Harmattan.

Park, Robert Ezra (1979). A Cidade: Sugestões para a Investigação do Comportamento Humano no Meio Urbano. Em Velho, Otávio G. (org.) O fenômeno urbano. RJ: Zahar. p.26-67.

Park, Robert Ezra (1928) Las migraciones humanas y el hombre marginal. (www.infoamerica.org/teoria/park1.htm) (consulta: 01-02-2014). Do original: Human Migrations and the Marginal Man.

Reichardt, Charles S.; Cook, Thomas D (1986). Hacia una superación del enfrentamiento entre los étodos cualitativos y los cuantitativos, en: Métodos cualitativos y cuantitativos en investigación evaluativa. Madrid: Morata, p. 25-52.

Resende, Selmo H. de (1999). Abordagens biográficas e Foucault. Em Neho-história. Revista do Núcleo de Estudos em História Oral, N. 1, Nov., p. 59-70.

Rodrigo Alsina, Miquel (1999). Comunicación intercultural. Barcelona: Anthropos.

Rodrigo Alsina, Miquel (2001). Teorías de la comunicación. Ámbitos, métodos y perspectivas. València: Universitat de València; Castelló de Ia Plana: Publicacions de Ia Universitat Jaume l: Barcelona: Universitat Pompeu Fabra; Bellaterra: Universitat Autònoma de Barcelona, Servei de Publicacions. D. L.

Rodrigues, Adriano (1996). O discurso mediático. Lisboa, mimeo. 30 p.

Russi, Pedro (2002). A midiatização como processo de construção das identidades culturais: estudo dos processos de produção de sentido - nas mídias impressas brasileiras e uruguaias - das representações interculturais dos imigrantes no contexto do Mercosul. XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Salvador: Intercom/UNEB.

Russi, Pedro (2005a). As mediações nos processos comunicacionais da experiência de heteroautoexperimentação no cenário das migrações contemporâneas do Mercosul - imigrantes uruguaios no Sul do Brasil. XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Rio de Janeiro: Intercom/UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Russi, Pedro (2005b). Reflexões (epistemológicas) A História Oral e Memória na pesquisa: “O midiático e não midiático na experiência heteroautoexperimentação no cenário das migrações contemporâneas do Mercosul - imigrantes uruguaios no Sul do Brasil”. Encontro Catarinense de História Oral - SC/Joinville; Universidade da Região de Joinville - UNIVILLE /Departamento de História.

Russi, Pedro (2009). Meios de Comunicação na migração. Uruguaios no Sul do Brasil. Porto Alegre: Entremeios.

Sodré, Muniz (1999). Claros e escuros. Rio de Janeiro: Vozes.

Thomson, Paul (1992). A voz do passado. História oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Verón, E (1997). Esquema para el analisis de la mediatizacion. Diálogos de la comunicación, n. 48, p. 9-17. (www.felafacs.org/dialogos) (consulta: 10-05-2004).

Williams, Raymond (1979). Marxismo e Literatura. Rio de Janeiro: Zahar.

Yankelevich, P. (Org.) (1998). En México, entre exilios. Una experiencia de sudamericanos. México: Plaza y Valdés.



[1] Pesquisa desenvolvida entre os anos 2008 e 2012 com apoio do Cnpq Brasil (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

[2] Pesquisa desenvolvida entre os anos 2002 e 2005 com apoio da Capes Brasil (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

[3] Essa decisão foi tomada principalmente com base em: Grisa (2003); Josso (2004). Grisa também destaca várias divergências muito interessantes a respeito das distinções e caracterizações entre história oral e de vida, o que não deixa de ser instigante à hora da tomada de decisões. Vide : Thomson (1992); Halbwachs (1990); Yankelevich, P. (2002); Le Goff (1982); Amado e Moraes (2001); Bourdieu (1997); Bosi (1979); Fernandes (1991).

[4] Homem narrador, contador.

[5] [Destaques nossos]

[6] Cf. Dutra e Russi (2012); Russi (2002, 2005 a b)

Enlaces refback

  • No hay ningún enlace refback.




Copyright (c) 2014 Chasqui. Revista Latinoamericana de Comunicación

Licencia de Creative Commons
Este obra está bajo una licencia de Creative Commons Reconocimiento-NoComercial-SinObraDerivada 4.0 Internacional.

convocatorias

Es una edición cuatrimestral creada y editada por CIESPAL.
Av. Diego de Almagro N32-133 y Andrade Marín.
Quito-Ecuador.

Síguenos en:

convocatorias

convocatorias

Revista Chasqui 2018
está bajo Licencia Creative Commons Atribución-SinDerivar 4.0 Internacional.