1. Introdução As questões socioambientais são dinâmicas e caracterizam-se pelas incertezas e pelos riscos associados ao desenvolvimento técnico-industrial, exigindo, assim, abordagens que promovam a criticidade e a reflexão diante dos desafios locais e globais. Tal temática alia-se a problemas que envolvem interações complexas entre sociedade, ambiente e redes de comunicação, incluindo as consequências das ações humanas sobre o meio natural e os impactos sociais decorrentes dessa interação, que não podem ser compreendidos sem sua relação com os sistemas econômicos e culturais (Watanabe & Rodríguez-Marín, 2018).

Deriva daí a ideia de racismo ambiental, que começou a ganhar maior embasamento teórico por meio dos trabalhos de Robert Bullard (Filgueira, 2021). Bullard (2005) destacou que o termo reforça a estratificação de pessoas (por raça, etnia, status social e poder), de lugares (cidades principais, bairros periféricos, áreas rurais, áreas não incorporadas ou reservas indígenas) e de trabalho (com maior proteção para trabalhadores de escritório em relação aos trabalhadores agrícolas).

No Brasil, estudos começaram a explorar o conceito, reconhecendo-o como uma ramificação do racismo estrutural, a partir dos anos 2000. Autores como Herculano e Pacheco (2006), Herculano (2008) e Pereira e Brouwers (2011) foram fundamentais para consolidar o uso da terminologia no país, conectando-o às especificidades de suas desigualdades socioambientais. O termo racismo ambiental ganhou visibilidade após a Ministra da Igualdade Racial do Governo Lula, Anielle Franco, afirmar em uma publicação na Plataforma X (anteriormente Twitter) que os prejuízos causados pelas fortes chuvas que atingiram o Rio de Janeiro em 13 de janeiro de 2024 representavam “efeitos do racismo ambiental e climático”. Tal declaração trouxe o racismo ambiental ao centro do debate comunicacional, chamando a atenção para a ausência de políticas públicas sobre a questão e suscitando acirradas discussões nos veículos de mídia brasileiros a partir de então.

As mídias sociais, amplamente reconhecidas por seu fluxo livre de informação, possibilitam a circulação de conteúdos variados e interações a longa distância, o que favorece o alcance de públicos diversos e o exercício do potencial democrático dessas plataformas. Conforme Recuero (2014), as redes sociais na internet permitem novas formas de comunicação e interação, com uma circulação de conteúdo que ultrapassa fronteiras físicas e temporais, ampliando a capacidade de articulação e mobilização social.

Entretanto, há desafios e problemas associados ao uso dessas mídias. Inicialmente vistas como plataformas de comunicação livre, tais veículos têm sido cada vez mais marcados pela polarização e pelo extremismo. O fluxo de comunicação sofre interferências de “ruídos”, como a disseminação de notícias falsas (fake news), estimulada por modelos de negócios que priorizam cliques e visualizações em detrimento da qualidade e confiabilidade dos conteúdos. Como resultado, o que antes era visto como um mecanismo de renovação democrática passou a comprometer seu funcionamento adequado (De Carvalho, 2020).

Neste viés, Menezes e Rodembusch (2019) refletem que “o crescimento da utilização das redes sociais e o constante processo de convergência dos meios de comunicação tradicionais para o ambiente online vem alterando não somente a forma como as pessoas se comunicam, mas também a maneira como se informam”. Daí advém seu papel ambivalente na sociedade: por um lado, elas têm o potencial de informar, esclarecer e conscientizar a população sobre questões relevantes; por outro, podem servir como ferramenta de desinformação, propagando conteúdos tendenciosos, imprecisos ou até falsos.

Dessa forma, compreendemos que o jornalismo digital promove um fluxo de informação mais aberto, destacando a utopia do livre acesso à informação, impulsionada por plataformas que moldam novos modelos de negócios jornalísticos (Maurício & Almeida, 2019). Tudo isso é ainda amplamente acessado em decorrência do acesso à internet, que vem crescendo cada vez mais. Tal afirmação vai ao encontro dos dados do módulo Tecnologia da Informação e Comunicação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua TIC), divulgados em 2022 pelo IBGE, os quais apontam um crescimento contínuo da rede, revelando a utilização da internet por cerca de 164,5 milhões de brasileiros com 10 ou mais anos (IBGE, 2025). Resultam desses e de demais dados correspondentes os esforços encampados por diferentes pesquisas críticas sobre tecnologia e meios jornalísticos digitais, incluindo-se aqui outros territórios latino-americanos (Marroquín et al., 2024).

Como diferentes veículos jornalísticos digitais no Brasil abordam e representam o racismo ambiental em suas coberturas sobre desastres socioambientais?. A partir desta pergunta inicial, do ponto de vista metodológico, por meio de uma pesquisa exploratória qualitativa, buscou-se identificar a presença do termo racismo ambiental em notícias publicadas em oito portais reconhecidos como referências no jornalismo brasileiro: G1, O Globo, Folha de S.Paulo, UOL, Terra, Estadão, Brasil de Fato e Gazeta do Povo. A partir de uma investigação inicial sobre os conteúdos postados, foram examinados os contextos de abordagem nas notícias selecionadas para a análise. Em seguida, exemplos específicos foram agrupados em unidades de contexto para discutir de que modo as tendências sobre racismo ambiental estão intrinsecamente ligadas a padrões ideológicos e tendências moldadas por visões editoriais políticas distintas.

2. Enquadramento teórico A crise ambiental e a iminência do colapso socioambiental global representam desafios urgentes que têm demandado uma reflexão profunda sobre as interações entre a sociedade e a natureza, impulsionada por uma série de fatores interconectados que comprometem a qualidade de vida das populações, especialmente as mais vulneráveis (Bueno, 2021). Foladori (2001) manifesta que “[...] é impossível entender a crise ambiental sem partir da compreensão da dinâmica da sociedade capitalista”. Ao objetivar a natureza, o ser humano provocou transformações radicais em seu ambiente, sendo a mais significativa aquela que afetou a própria espécie por meio das relações sociais de produção capitalista estabelecidas — como dependência, hierarquia e exploração —, visando o uso, a apropriação e a transformação do meio ambiente em uma linha de desenvolvimento pautada na dominância da natureza e do próprio homem.

As consequências dessa crise não se limitam somente ao âmbito ecológico; elas se manifestam também em questões sociais, evidenciando a interdependência entre os problemas ambientais e as desigualdades sociais, apresentadas enquanto injustiças ambientais. As comunidades que enfrentam tais impactos são frequentemente aquelas que possuem menos recursos para se adaptar e responder aos impactos antrópicos no meio natural, o que agrava ainda mais a situação. Segundo Silva (2012), “em sociedades desiguais, são os grupos racialmente discriminados e as populações de baixa renda – enfim, grupos vulneráveis e marginalizados – a arcar com a carga mais pesada dos danos ambientais gerados pelo desenvolvimento”. Essa dinâmica evidencia como desigualdades sociais e econômicas se entrelaçam às questões ambientais, ampliando as vulnerabilidades desses grupos e reforçando estruturas de injustiça.

Emerge daí a reflexão que daria origem, posteriormente, ao conceito de racismo ambiental, cuja discussão começou a tomar maior forma principalmente a partir de 1982, com o caso emblemático dos protestos das comunidades negras do Condado de Warren, nos Estados Unidos, após um estudo mostrar que a maioria dos aterros de resíduos perigosos na região estava localizada em áreas habitadas por essas comunidades (Bullard, 2001). Os manifestos tiveram como consequência um alto custo de limpeza ambiental e estimularam a condução do estudo intitulado “Resíduos Tóxicos e Raça”, pela Igreja Unida de Cristo, publicado em 1987. O resultado revelou que 60% dos negros nos EUA viviam em comunidades com, ao menos, um local de resíduos tóxicos, e que 40% da capacidade de aterros do país estavam em áreas predominantemente negras (Henderson & Wells, 2021). Essa investigação foi crucial para evidenciar as disparidades ambientais baseadas em raça e catalisar ações no movimento de justiça ambiental ao redor do mundo.

No Brasil, Silva (2012) discute que o racismo ambiental, termo anteriormente cunhado pelo reverendo Benjamin Chavis em 1982, reflete-se nas condições de vida das populações racializadas, que muitas vezes residem em áreas suscetíveis a desastres ambientais, como encostas e margens de rios. Mais do que uma questão de poluição ou impacto ambiental, o conceito envolve um sistema de desigualdades estruturais que perpetua a vulnerabilidade dessas populações, evidenciando as interseções entre desigualdade racial, social e ambiental.

A crescente presença das mídias digitais como instrumentos de denúncia e mobilização tem destacado sua importância na visibilidade de questões sociais, a exemplo do racismo ambiental. As plataformas oferecem um espaço dinâmico para a exposição de desigualdades, ampliando o alcance das denúncias e fortalecendo a luta por justiça ambiental e racial no Brasil, como exemplificado pela fala da ministra Anielle Franco. Nessa dinâmica, o jornalismo digital manifesta-se como uma das principais forças disseminadoras de informação na contemporaneidade, interligando-se diretamente às redes sociais enquanto espaços de interação e mobilização social. Ele beneficia-se da fluidez do ciberespaço, ampliando sua capacidade de alcançar públicos diversificados e potencializando a velocidade e o alcance das narrativas compartilhadas (Menezes & Rodembusch, 2019).

Em conexão com as redes sociais, a dimensão interativa do jornalismo digital causa um impacto que vai além da simples disseminação de informações; ela se consolida como um espaço de construção de sentidos e narrativas, muitas vezes determinando os temas que ocupam o centro dos debates públicos. Nessa dinâmica, a criação de laços sociais e a interação com o público são garantidas por meio de curtidas, compartilhamentos e comentários, gerando engajamento e gerenciamento de dados dos usuários, permitindo que o jornalismo digital adapte suas abordagens para atender às demandas contemporâneas.

Por conseguinte, De Carvalho (2020) aponta que esses ambientes digitais também têm intensificado a polarização política e o extremismo, potencializados pela disseminação de notícias falsas. Esses fatores podem prejudicar a compreensão de temas complexos, como o racismo ambiental, pois as informações que circulam nesses espaços nem sempre possuem a qualidade ou a confiabilidade necessárias para fomentar debates produtivos e informativos. Essa lógica digital ressalta a necessidade de um olhar crítico sobre como as tendências presentes no meio jornalístico são moldadas, reproduzidas ou deturpadas nas redes sociais, impactando diretamente a forma como o tema é percebido e debatido na esfera pública.

De natureza qualitativa, o presente artigo buscou compreender como o problema se manifesta nas interações sociais por meio da análise dos meios jornalísticos digitais em relação ao racismo ambiental. Conforme mencionado na introdução do artigo, a coleta de dados de pesquisa ocorreu em oito veículos comunicacionais importantes do país: G1, O Globo, Folha de S.Paulo, UOL, Terra, Estadão, Brasil de Fato e Gazeta do Povo.

O primeiro semestre de 2024 foi utilizado como intervalo temporal de análise pela relevância de eventos específicos que marcaram o tema neste período, especialmente o uso da expressão “racismo ambiental” pela Ministra Anielle Franco, em janeiro, e as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul, no final de abril daquele ano. Este último fato ganhou visibilidade na mídia latino-americana a partir de maio, trazendo à tona discussões sobre racismo ambiental, desigualdades e riscos climáticos.

Utilizou-se como ferramenta de busca, nos portais de notícias analisados, a palavra-chave “racismo ambiental” no título da matéria ou no texto da matéria completa. Foram consideradas notícias escritas em português, excluindo colunas, seções de opiniões e blogs — daí a ênfase colocada mais no que chamamos de jornalismo digital do que, propriamente, em redes sociais.

Após a constituição do corpus de pesquisa, procedeu-se à sua interpretação, dividida em três etapas: i) organização inicial dos dados, escolha das notícias dos oito jornais digitais previamente selecionados que continham o termo “racismo ambiental” no título ou em matérias completas; ii) criação das unidades de contexto a partir da leitura, checagem de fontes responsáveis pela publicação e codificação inicial das postagens para identificação do tema, padrões discursivos e categorias emergentes; e iii) tratamento e interpretação dos resultados face aos objetivos da pesquisa. Nesta última etapa, foi feita uma análise comparativa das publicações por portal de notícias, com o objetivo de compreender como elas se articulam com cada política editorial dos veículos eleitos para o estudo.

4. Resultados e discussões Para a sistematização inicial dos dados, após a leitura e análise das matérias com base no referencial teórico sobre racismo ambiental, foram encontradas 36 notícias nos oito portais previamente definidos que abordaram direta ou indiretamente o tema. A partir dessa primeira análise, chegou-se à criação da seguinte estrutura analítica (Quadro 1):

Quadro 1 – Categorização das notícias analisadas Categorias temáticas Quantidade Eventos como evidência do racismo ambiental 18 Ativismo e movimentos sociais do racismo ambiental 10 Debates e controvérsias sobre o racismo ambiental 8 Fonte: Autores (2025).

As três categorias temáticas elencadas no Quadro 1 foram amplamente veiculadas pelo jornalismo digital brasileiro entre janeiro e junho de 2024, especialmente em razão dos dois eventos enunciados a seguir.

Gráfico 1 – Notícias sobre racismo ambiental no primeiro semestre de 2024

Gráfico 1 – Notícias sobre racismo ambiental no primeiro semestre de 2024

[Referência à imagem 2645 demonstrando picos em jan/24 e mai/24] Fonte: Autores (2025).

A análise do Gráfico 1 permite entender que o período delimitado para a coleta de notícias corrobora o pressuposto inicial de que, no primeiro mês de 2024, após a declaração da Ministra Anielle Franco, o tema do racismo ambiental passou a ser amplamente debatido pelos principais veículos de mídia do país, com janeiro registrando o maior volume de notícias sobre o assunto. O mesmo padrão foi observado em maio, mês em que a tragédia ambiental no Rio Grande do Sul recebeu significativa atenção da mídia, justificando o intervalo de tempo escolhido para esta pesquisa.

4.1 Abordagem do tema racismo ambiental pela mídia jornalística

A partir das 36 notícias encontradas, realizou-se um recorte dentre as três categorias emergentes, destacando as notícias que concatenam de modo especial a discussão do tema racismo ambiental pela mídia contemporânea. Em seguida, recortou-se a discussão temática para oito das 36 notícias, de modo a colocar ênfase naquelas pertencentes à categoria “Debates e controvérsias sobre o racismo ambiental”. De forma a sistematizar a análise das notícias do corpus documental, tais matérias foram organizadas conforme o Quadro 2, a partir do portal de imprensa, título e data de publicação.

Código Portal Título da notícia Data N2 Gazeta do Povo Ministra de Lula associa chuvas no Rio a “racismo ambiental e climático”

15/01/24 N3 Gazeta do Povo Silvio Almeida sai em defesa de Anielle Franco e reforça tese do “racismo ambiental”

16/01/24 N4 Estadão Direita critica “racismo ambiental” citado por Anielle Franco, e ministros saem em defesa do termo 16/01/24 N5 Gazeta do Povo Governo sai em defesa de Anielle Franco e divulga nota reforçando tese do “racismo ambiental”

17/01/24 N6 O Globo Após críticas a fala de Anielle, governo publica texto explicando o que é ‘racismo ambiental’ 17/01/24 N7 Gazeta do Povo Importado dos EUA, “racismo ambiental” vira obsessão da esquerda brasileira 19/01/24 N8 UOL Flávio Bolsonaro ataca Anielle Franco com palavrão e é repreendido no Senado 09/05/24 Fonte: Autores (2024).

A interpretação dos resultados permitiu perceber que a terminologia “racismo ambiental” é uma evidência essencial para as injustiças ambientais que afetam desproporcionalmente populações racializadas e de baixa renda no Brasil. Bullard (1994) enfatiza que o termo denuncia políticas e práticas que historicamente alocam essas comunidades em áreas de risco ambiental, como regiões com contaminação industrial e ausência de infraestrutura básica. Segundo o autor, a expressão “racismo ambiental” é necessária para nomear e reconhecer os efeitos discriminatórios das políticas ambientais que, paulatinamente, alocaram comunidades negras, indígenas e outras minorias em áreas com maior exposição a riscos, como contaminação por resíduos industriais, falta de saneamento básico e riscos climáticos (Bullard, 1994). Assim, a terminologia não é apenas uma escolha semântica, mas um componente central na formação de consciência crítica e na promoção de políticas públicas de reparação social e equidade racial.

Na análise das oito notícias eleitas como dados principais deste estudo, destaca-se o papel da imprensa na construção de sentidos sobre o termo, especialmente após o mês de janeiro de 2024, quando as chuvas no Rio de Janeiro foram associadas ao racismo ambiental. A repercussão gerou tanto esclarecimentos quanto ataques, revelando o potencial mobilizador e o grau de polarização política em torno do conceito por meio do jornalismo digital. Nesse sentido, destacamos a notícia N1, que explora a origem, o desenvolvimento histórico e outras interpretações do termo “racismo ambiental”, contextualizando-o como uma forma de discriminação que afeta desproporcionalmente populações vulneráveis. A afirmação da Ministra Anielle Franco de que os impactos das chuvas no Rio de Janeiro sobre a população negra e pobre estavam interligados com o racismo ambiental gerou grande repercussão nas redes sociais, o que é reforçado pela matéria ao mencionar que as buscas pelo termo no Google cresceram significativamente nos últimos anos, de uma média de 2 por dia em 2016 para cerca de 100 em 2024 (Castro, 2024a).

Além disso, a manchete presente na N1 esclarece uma interpretação equivocada, afirmando que “muitas pessoas entenderam que a ministra estaria chamando o meio ambiente de racista, mas esse não é o significado do termo, que tem sido reconhecido pela comunidade científica que debate as mudanças climáticas” (Castro, 2024a, online).

Como contraponto às interpretações equívocas, expõe-se o seguinte trecho da matéria: “O entendimento é de que, apesar de as mudanças climáticas afetarem todo o planeta e, consequentemente, todos os seres humanos, são aqueles que têm menor condição financeira, de moradia e infraestrutura, que sofrem os maiores efeitos” (Castro, 2024a, online).

Conclui-se, portanto, que a matéria ajuda a compreender o conceito de racismo ambiental e sua relevância na sociedade atual, indo ao encontro das narrativas produzidas pela comunidade científica no contexto brasileiro, considerando as particularidades socioeconômicas do país agravadas pela desigualdade racial e pelas injustiças ambientais. O uso preciso do termo ajuda a estabelecer uma compreensão compartilhada entre acadêmicos, ativistas e formuladores de políticas, permitindo uma análise crítica e ação direcionada para mitigar as desigualdades raciais e sociais.

Em oito das notícias analisadas na pesquisa realizada, é possível notar que a ideia de racismo ambiental é frequentemente tratada como questão políticopartidária. Um exemplo disso é a notícia N4, que traz críticas de parlamentares como Sóstenes Cavalcante (PL), que classificou o termo como “narrativa da esquerda”. Esse tipo de abordagem revela a polarização política que persiste em envolver o tema não apenas no país, mas em outras inúmeras regiões do globo, transformando-o em disputa ideológica, além de técnica ou acadêmica. Conforme Fuks e Marques (2022) apontam, a polarização política no Brasil é um fenômeno complexo e multifacetado, profundamente influenciado por contextos sociais e históricos.

No caso do racismo ambiental, esse efeito pode ser analisado sob duas perspectivas principais, conforme ponderaram Fuks e Marques (2022): tanto de forma afetiva — ou seja, com sentimentos negativos ao grupo adversário e positivos ao próprio — quanto de forma ideológica, por meio do distanciamento entre posições políticas. No caso do racismo ambiental, prevalece a polarização afetiva, evidenciada em reações às falas da Ministra Anielle Franco.

A imprensa exerce papel central nessa dinâmica, tanto ao mediar o debate quanto ao alimentar a polarização. Manchetes como as das notícias N4 e N7 reforçam a ideia do racismo ambiental como “narrativa de esquerda”, impulsionadas por líderes políticos e veículos de mídia. Conforme anunciado por Miguel (2019), desde as manifestações de 2013, a cobertura midiática brasileira tem favorecido narrativas que ampliam conflitos, dificultando diálogos e aprofundamentos.

Além disso, a circulação de fake news auxilia no agravamento de nosso cenário social. Nesse sentido, Miguel (2019) complementa:

Um dos elementos que compõem o cenário da crise da democracia – como causa, como consequência ou como efeito colateral – é a mudança no ambiente informacional, com a presença cada vez mais importante de notícias falsas, disseminadas por sistemas alternativos de comunicação, que fortalecem o sentimento de pertencimento a grupos políticos rivais e solapam a possibilidade de um diálogo abrangente.

Assim, as fake news desinformam ou deturpam conceitos fundamentais, como o próprio racismo ambiental. Essas informações frequentemente circulam nas redes sociais e em veículos de comunicação com agendas específicas, dificultando a compreensão crítica do público sobre o tema. Um exemplo é a afirmação da notícia N7: “[...] não existem indícios de que esses bairros sejam deliberadamente prejudicados por terem a população negra” (Castro, 2024b).

O discurso supracitado reflete uma narrativa desinformada que merece ser profundamente problematizada à luz do processo histórico racial no Brasil, especialmente no contexto do racismo estrutural e ambiental que ainda nos servem como ethos de nação. Tal discurso ignora o histórico de exclusão racial no Brasil, especialmente após a abolição da escravidão, que empurrou populações negras para regiões periféricas e vulneráveis. A segregação racial é estrutural, e suas consequências vão além de intenções explícitas — resultam de práticas institucionais e históricas que perpetuam desigualdades (Oliveira & Oliveira, 2015). Nesse sentido, a declaração do portal Gazeta do Povo, referente à notícia N7, reforça uma visão limitada ao afirmar que “não existem indícios de que esses bairros sejam deliberadamente prejudicados por terem a população negra”. A segregação racial é um fenômeno estrutural e institucional, que posiciona populações racializadas em condições de subalternidade socioeconômica e espacial. Sendo assim, esse processo não se sustenta apenas por discriminações explícitas, mas pela reprodução histórica de sistemas econômicos, políticos e culturais que perpetuam a vulnerabilidade das populações negras e periféricas. Esse cenário é agravado por políticas públicas excludentes e pela falta de compromisso institucional com a promoção da equidade racial (Oliveira & Oliveira, 2015).

Por fim, na presente categoria observa-se que, enquanto alguns veículos buscaram contextualizar o termo em bases científicas, outros reforçaram narrativas simplistas ou negacionistas, intensificadas pelas fake news, frequentemente atreladas a discursos ideológicos. Essas e outras controvérsias ainda expõem o modo como esse termo se tornou um campo de disputa simbólica, onde estão em jogo visões de mundo, projetos de sociedade e compromissos com a justiça socioambiental. Reconhecê-lo como expressão do racismo estrutural é

Figura

passo fundamental para políticas públicas efetivas e uma compreensão crítica das desigualdades que marcam o território brasileiro.

4.2 Análise comparativa entre linhas editoriais

A análise do conteúdo relacionado ao racismo ambiental revelou diferenças notáveis na quantidade e abordagem das notícias publicadas pelos portais analisados, conforme ilustrado no Gráfico 2. Essas variações estão diretamente ligadas às linhas editoriais e prioridades discursivas de cada um dos veículos analisados.

Os dados afirmam os portais G1, O Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, UOL e Terra como plataformas de jornalismo mais tradicionais no país. Isso porque esses veículos demonstraram maior foco em desastres naturais e tragédias climáticas, priorizando a articulação de suas pautas junto à categoria “Eventos como evidências do racismo ambiental”. O gráfico demonstra que cinco desses seis portais publicaram pelo menos uma notícia nessa categoria, contabilizando 9 das 18 notícias pertencentes à mesma categoria. Nesse sentido, tais matérias tendem a adotar uma linguagem factual e descritiva, com menor aprofundamento crítico sobre as implicações estruturais do racismo ambiental. Essa abordagem neutra e descritiva reflete o objetivo das plataformas em informar sem assumir posicionamentos políticos explícitos, o que, em contrapartida, pode limitar a problematização do tema em contextos mais amplos.

O portal Brasil de Fato apresentou a abordagem mais crítica e engajada entre os analisados, como evidenciado por sua alta quantidade de publicações (16 notícias) distribuídas principalmente nas categorias “Eventos como evidências do racismo ambiental” e “Ativismo e movimentos sociais”. Das 16 notícias, nove estão na primeira categoria, onde o portal destacou as interseções entre o racismo ambiental e fatores como classe, gênero e território, explorando uma perspectiva interseccional que amplia o debate sobre o tema. As sete notícias da segunda categoria enfatizaram iniciativas de resistência coletiva e reivindicações de direitos, promovendo a visibilidade de movimentos sociais e ações concretas no enfrentamento ao racismo ambiental.

Segundo Cassol (2010), no Brasil de Fato, a escolha das matérias publicadas segue a lógica de organizações políticas e movimentos sociais que realizam análises de conjuntura. Dessa forma, tornam-se pauta os temas alinhados à linha editorial do jornal, que busca estimular as lutas sociais, formar politicamente bases de militância entre seus leitores, e elevar o nível de consciência de classe entre suas audiências. Em síntese, o conteúdo reflete um compromisso com a mobilização e o combate às desigualdades. Em 2024, a partir do presente estudo, o portal Brasil de Fato demonstrou prosseguir com a mesma abordagem para escolha de materiais a serem publicados, onde esse tipo de análise esteve relacionado diretamente com os conteúdos do portal sobre racismo ambiental, tratando-o, ao mesmo tempo, como um tema social, político e estrutural.

Em contrapartida, o portal Gazeta do Povo apresentou-se como linha editorial que deslegitima o termo “racismo ambiental”. Com quatro publicações, todas pertencentes à categoria de debates e controvérsias conceituais, o portal frequentemente abordou o tema de forma a questionar sua relevância e reforçar narrativas polarizadas. Exemplos de títulos como “Importado dos EUA, ‘racismo ambiental’ vira obsessão da esquerda brasileira” ilustram como o portal pode minimizar o conceito, utilizando-o como ferramenta para reforçar um discurso político contrário à esquerda e aos movimentos sociais. Essa postura tende a descredibilizar o termo ao associá-lo, por conseguinte, à ideia de “obsessão ideológica”, negando as conexões entre desigualdades raciais e questões ambientais, e limitando a profundidade do debate público sobre o tema.

É neste viés que Tavares (2020) utiliza a expressão “guinada à direita” para referir-se à mudança editorial significativa da Gazeta do Povo, consolidada em 2017, quando o jornal adotou uma linha mais conservadora e alinhada a posições políticas de direita. Influenciada pelo contexto político brasileiro após o golpe presidencial de 2016, essa transformação levou a Gazeta a se reposicionar como concorrente de grandes jornais nacionais, mas priorizando opinião e interpretação conservadora dos fatos, em detrimento do jornalismo informativo e imparcial que anteriormente predominava. Essa nova abordagem, marcada pela maior fusão entre opinião e informação, consolidou o jornal como uma das principais vozes do conservadorismo brasileiro, mas gerou críticas sobre a qualidade e a imparcialidade de suas reportagens. Em conclusão, esse desvio à direita pode influenciar a confiança do público na mídia. Se os leitores perceberem que um veículo de comunicação não é imparcial, isso pode levar a uma crise de credibilidade, onde a população se torna cética em relação às informações veiculadas, buscando fontes alternativas que podem não ser necessariamente mais confiáveis (Tavares, 2020).

5. CONCLUSÕES Este artigo investigou como o racismo ambiental tem sido representado nos principais meios jornalísticos digitais brasileiros, com ênfase nas repercussões midiáticas de desastres ambientais ocorridos em 2024 nos Estados do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. A análise revelou que o termo ganhou centralidade no debate público, sendo abordado de formas diversas e conforme a linha editorial dos portais de notícia.

Observou-se que veículos tradicionais tendem a tratar o tema de maneira factual e neutra, com foco nos desastres ambientais em si, enquanto mídias alternativas, como o Brasil de Fato, adotam uma perspectiva crítica e interseccional, abordando as conexões entre raça, classe, território e meio ambiente. Por outro lado, portais com perfil mais conservador, como a Gazeta do Povo, frequentemente deslegitimam o conceito, associando-o a narrativas ideológicas, o que contribui para a polarização e desinformação do debate.

Essas diferentes abordagens evidenciam o papel central da mídia na construção de sentidos e na formação da opinião pública sobre justiça ambiental e racial. A diversidade de narrativas encontrada durante a análise dos dados, por sua vez, reforça a necessidade de um consumo crítico da informação, sobretudo diante da crescente presença de fake news e discursos ideologicamente enviesados.

Além disso, os resultados do estudo destacam a importância de um jornalismo digital comprometido com questões contemporâneas e atento às vozes historicamente marginalizadas. A cobertura sensível e situada do racismo ambiental não apenas amplia a compreensão das injustiças estruturais no Brasil, como também fortalece processos de mobilização social e formulação de políticas públicas mais equitativas.

Nesse sentido, destaca-se a relevância de um jornalismo digital comprometido com as demandas sociais de territórios específicos. O racismo ambiental, embora evidenciado pela pesquisa realizada no contexto brasileiro, também atravessa outros países latino-americanos, exigindo uma cobertura sensível às particularidades socioterritoriais de cada região. Um jornalismo engajado e situado, que dialogue com as experiências locais e valorize vozes subalternizadas, é fundamental para fortalecer processos de conscientização, mobilização social e justiça ambiental.

Para pesquisas futuras, sugere-se investigar como comunidades diretamente impactadas pelo racismo ambiental recebem, interpretam e reagem às narrativas jornalísticas, bem como aprofundar a análise das interseções com marcadores como gênero, classe social, raça e território. Essa abordagem pode contribuir para a construção de estratégias mais eficazes de resistência civil, políticas públicas e transformação social.

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